Bom, muitos de vocês devem ter lido a minha odisseia por Clapham e como os acontecimentos dessa noite foram infrutíferos. O problema, é que as peripécias não se ficam por aí, e até eu encostar a minha cabeça numa almofada em Canning Town ainda se sucederam coisas que parecem saídas de uma comédia de baixo rendimento.
Cheguei a Canning Town uns dez minutos depois da meia-noite com o estômago a roncar qual desafinada orquestra. Poderia ir procurar algum local aberto para comer, mas já estava cansada e a verdade é que Canning Town não é dos locais mais apetecíveis para se passear à noite. Na verdade, enquanto apanhava mais um autocarro até à casa da minha prima (juro que já não podia com transportes públicos), observava aqueles edifícios degradados e as ruas sujas tão diferentes das do centro de Londres e pensava em como esta cidade poderia ser acabada de sair do romance de Charles Dickens “A Tale of Two Cities”. «Era o melhor dos tempos (para Westminster, Nothing Hill e tantas outras zonas posh de Londres), era o pior dos tempos (para Canning Town, Bow ou outra zona degradada da capital britânica)». Era como estar no Bronx, mas na Europa e a última coisa que me faltava acontecer naquele dia era ser vítima de algum gang.
Pela janela pude vislumbrar que a maior parte dos restaurantes (incluindo o McDonald’s) estavam fechados e só me restava ir para cama com fome e aguardar até o dia seguinte, numa atitude de auto-punição (até porque não sou do tipo de pessoa que assalta a cozinha dos outros). Apeei-me no meu destino e olhei à minha volta, tirando um pub de onde provinham as risadas alegres de quem já bebera em demasia, não se via vivalma. Foi então que ajustando os óculos à minha cara, vi aquele letreiro que, para mim, reluzia como um letreiro de Las Vegas, «The King of Town» penso ser o nome, com o logótipo de um sorridente frango (o que deve significar o quê, que o frango estava feliz antes de virar um hambúrguer?). Entrei no estabelecimento, aquela hora frequentado por noctívagos que me faziam lembrar personagens do teledrama britânico EastEnders, e pedi um menu cheeseburguer que me custou 2,50 libras. Vendo os clientes entrarem e saírem, muitos olhando-me com curiosidade, afinal, uma jovem nova por aquelas bandas, de mochila às costas devia de despertar curiosidade. Deliciando-me com o hambúrguer, que teve gosto a ouro para mim, senti a minha auto-estima regressar vagarosamente, ao mesmo tempo que o meu corpo absorvia as poucas proteínas naquela refeição. Senti-me como uma personagem de algum filme do James Dean ou do Marlon Brando em inicio de carreira… era como se estivesse no livro de Jack Kerouac e, por escassos momentos até apreciei como seria a vida de um hippie ou de um viajante de mala às costas, um nobre vagabundo… até ser trazida à realidade pelo indiano que administrava o King of Town, «We’re gonna close, mate».
Atravessei a estrada e caminhei pela rua da casa da minha prima afastada, a grande velocidade. Era pouco iluminada e a sensação de que a algum instante ia sair alguém da escuridão com uma faca em punho e dizer «Give me ya money, bitch», não me saía da cabeça. Lembrava-me do caminho que fizera de tarde e sabia que ela morava no número 28, mas a verdade é que à noite, a pouca iluminação e os meus óculos que já não servem muito para a minha miopia em ascensão, já não sabia bem qual era a porta dela… lembrava-me que era uma das primeiras por isso decidi bater à porta daquele que supôs ser o número 28. Uns dois minutos depois de ter batido à porta vigorosamente ouvi passos na escada e uma voz em reclamo… a porta abriu-se e um careca quarentão de ar ensonado espreitou pelo ferrolho. «WTF», pensei. Sabia que a minha prima tinha três filhos, mas não conhecia o marido dela, por isso podia bem ser aquele tipo.
«Yes», disse ele profundamente irritado. Tinha cara de quem tivera um sonho delicioso e que eu lhe interrompera esse prazer. «Uuh… Sandra!?», balbuciei eu, sentindo-me verdadeiramente idiota. «Aqui não vive nenhuma Sandra», disse ele. Foi como se me dessem um soco no estômago. «Sorry, sir, I made a mistake», disse eu ao mesmo tempo que ia recuando, receosa. E se o tipo me fosse bater com a vassoura, tomando por alguma sem-abrigo a importunar os cidadãos decentes. Comecei a correr, até encontrar o número 28. Afinal batera no número 32!
No dia seguinte, quando saí de manhã para dar um passeio pela City, encontrei o homem à porta de casa acendendo um cigarro na companhia do amigo (será que são parentes da Mafia, pensei, e me vão mandar desta para melhor). «How are ya?», perguntou ele mal me viu. Bolas, pensei, ele reconheceu-me e achei melhor pedir desculpas. «Foi a si que eu bati ontem à porta?» «Sim». «Desculpe, sir, mas era de noite e eu confundi as portas», e corei a olhos vistos. Em vez de reclamações, as gargalhadas irromperam como bombas, no fundo a situação era algo cómica. «That’s fine, mate», disse o homem ainda rindo. «Thank you sir, have a nice weekend», disse eu antes de me dirigir à paragem. Caminhando e ainda ouvindo os risos atrás de mim, pensei… um dia ainda vou ver a minha biografia virar filme e com a Emily Blunt a fazer de mim.
