sexta-feira, 16 de julho de 2010

Entre o dever e o prazer

Já estou na Inglaterra há quase um mês e a vontade de escrever tem sido quase nula, quiçá por as ideias ainda não estarem devidamente ordenadas dentro da minha cabeça de maneira a contruir um texto coerente.

Da maneira como as coisas aconteceram desde que estive em Inglaterra pela última vez, foi tão repentino que me deixou deveras extasiada. Eu tinha regressado a Portugal com a minha moral completamente embaixo, semelhante à da Alemanha perante o Tratado de Versalhes e, em menos de um mês, recebo esta proposta para ser au-pair na Inglaterra, tomando conta de três crianças e com a possibilidade de fazer a minha pós-graduação, sendo esta custeada pelos meus patrões. Quando a minha patroa me disse que ia oferecer-me a vaga, não coube em mim de felicidade... Será que foi destino? Ou Deus quis que as coisas corressem mal da primeira vez para que eu tivesse esta segunda oportunidade? É daquelas respostas que deixamos ao critério das ciências ocultas.

O único problema é que, há medida que os dias se iam arrastando até ao dia da minha partida (24 de Junho), fui-me acostumando à minha antiga vida em Portugal: a equipa de trabalho coesa,, a vida social extremamente preenchida, concertos e festivais e um ou outro rendez-vous para me fazer deliciar com os prazes desses affairs espontâneos. Pela primeira vez pude dizer que estava plenamente feliz e a minha última semana em Portugal pude saborar aquela afamada hipérbole de «viver a vida num só dia»... yeah, I was unstopable. Mas então a realidade sobre a forma da minha mãe lembrou-me de que estava na hora de assumir as responsabilidades e a resignação tomou contada de mim. Duas horas antes do voo e eu ainda estava fazendo as malas (talvez porque eu, nop fundo, não queria ter de fechar aquele zipper). Ainda não conseguia acreditar que eu ia sair de Portugal justamente na altura em que a verdadeira diversão ia começar... em pleno Verão, onde as festas, as bebedeiras, as soirées, os convívios e a luxúria são o prato do dia... It was time to say goodbye.

E aqui estoui eu, desde então, confinada a Guildford, no Surrey, numa casa com 7 quartos, vivendo o countrydream que os meus patrões tanto almejam. A primeira semana fpi impossível de passar sem enterrar a cabeça na almofada e chorar desalmadamente qual uma carpideira. Foi meio difícil adaptar-me a esta zona, conhecida or ser aquela em que moram os grandes milionários, tendo de estar longe daqueles que amo e sem ter um amigo com quem sair, mas tive quie engolir isso tudo... é o meu dever...

Não consigo pensar em pessoas mais bondosas que os meus patrões... pelo menos ela é o protótipo da self-madewoman: filha de imigrantes portugueses, começou a trabalhar cedo, fazia part-times para comprar o apartamento que adquiriu em Londres aos 27 anos de idade e é muito conhecida no ramo financeiro da City. São aquelas pessoas ricas que obtiveram a sua fortuna com esforço e sabem dar valor àqueles que trabalham e que querem algo melhor para si. Eles preocupam-se com o meu bem-estar e querem dar-me a oportunidade de fazer algo melhor pela minha vida, parece até coisa de filme, o único problema é que vou ter que renunciar durante algum tempo a algo que eu preservo muito: a minha liberdade. Porque mesmo os meus patrões sendo pessoas excepcionais eu tenho igualmente de me lembrar que trabalho para eles e servir os outros não é propriamente uma tarefa fácil, principalmente quando a pessoa é totalmente o oposto de ti e insiste em que as coisas devem ser feitas do jeito dela, o que também não ajuda muito ao facto de vivermos todos nesta espaçosa casa onde parece que estou constantemente a trabalhar, mesmo quando o expediente terminou ou de só falar quando interpelada porque não tenho mais ninguém com quem conversar loquazmente como antes fazia... às vezes eu penso que a única altura em que consigo ser eu mesma é quando estou no meu quarto, sozinha dentro da minha própria cabeça, ainda que oiça o libeiro burburinho de uma voz repreensiva e impossível de agradar... é quase como ter um daqueles austeros professores da época vitoriana a bater-nos constantemente nas mãos com uma vara sempre que damos a resposta errada... eu simplesmente tenho saudades da altura em que eu podia viver a minha vida da forma anárquica que sempre foi sem estar enclausurada dentro de uma existência comandada por exigentes rotinas onde todos os dias parecem iguais... serei eu uma hippie?

E depois tem as vozes sábias que me dizem que este sacrifício que estou fazendo será recompensado com o dinheiro que irei colocar de lado durante o tempo em que aqui estou... com a oportunidade de estudar e com a oportunidade de conhecer coisas novas, ainda que os dias se tenham passado de forma irritantemente mundana. Tenho que fazer um total submissão do prazer ao dever porque agora é o meu futuro que está em jogo., ainda que, aos 21 anos as minhas hormonas reclamem por festas onde terei histórias para contar aos meus netos, afinal só se tem 21 anos uma vez na vida... bom, para ter netos terei que me aguentar neste trabalho ou caso contrário não terei dinheiro nem para me dar ao luxo de ter filhos. É altura de pensar no futuro e isso implica fazer sacrifícios, uma total devoção ao dever que me faz descobrir a razão pela qual a maior parte das familias reais não passam de um bando de frustados... e todas as vezes que eu encosto a cabeça na minha almofada antes de dormir, digo para mim mesma: «I will be good»