segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Meu lugar...


Depois de dois meses de uma vida de exlcusão social que rondava uma existência eremita finalmente fui até Portugal passar duas noites, um tempo demasiado curto quando penso no valor exorbitante da passagem. De qualquer maneira, e colocando o dinheiro de lado, creio ter sido uma boa experiência voltar a Portugal rever os amigos e a família e libertar-me das teias de aranha que me prendiam a língua (acho que em toda a minha vida nunca fui tão eloquente como nestes três dias). Contudo, não consegui deixar de sentir uma certa tristeza e confusão interna.

Após dois meses a viver numa casa com uma rotina totalmente divergente da minha, achei estranho regressar à minha antiga residência onde a rotina não é tão demarcada e onde, por vezes, a anarquia impera. Foi estranho ver-me, subitamente, com a oportunidade de poder fazer o que eu queria sem ter de estar constantemente a olhar para o relógio para saber o que deveria fazer a seguir. Depois desta experiência toda como au-pair acabar, quero saber como me libertarei da sombra deste regime quase militar ao qual estou encarcerada.

Em segundo lugar, não consegui deixar de me sentir estranha ao entrar no meu quarto e ver as coisas que havia deixado para trás. Não consegui parar de pensar que não me sentia à vontade num lugar que sempre fora o meu refúgio. E agora, regressando a Inglaterra e olhando para o quarto que tenho aqui, não consigo deixar de sentir a estranhez de saber que aqui também não pertenço e de sentir a falta de tudo o que deixei para trás.

Esta viagem a Portugal foi deveras alegre, mas encheu-me de dúvidas quanto ao lugar onde pertenço. É bastante difícil sentir-me como uma peça de puzzle inadequada aos dois lugares, uma nómada sem rumo, procurando o lugar onde se sente melhor. No fim dou por mim a perguntar qual é o meu lugar... É quem disse que crescer é fácil?

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Persepolis, o livro que mudou a minha visão


O The Guardian lançou uma lista de livros para ler antes de morrer, a qual eu posso afirmar, talvez de forma algo petulante, que já tive oportunidade de contemplar algum desses exemplares. Huxley, Camus, Flaubert, Orwell e afins, tudo autores que tornam a literatura numa arte por excelência, mas eu talvez acrescentaria a essa lista um livro que me tem feito pensar bastante nos últimos tempos: Persépolis, de Marjane Satrapi. Escrito no estilo banda desenhada que eu tanto adoro desde os quadradinhos de infância da Turma da Mônica e Asterix, Marjane mescla o humor com a crítica social, narrando a história dos últimos 40 anos do seu país de origem, o Irão (Irã em português do Brasil) e mostrando um país profundamente diferente das notícias com que somos constantemente bombardeados, notícias que pintam um povo terrorista e fundamentalista. É engraçado como me ajudou a clarear muitas coisas dentro da minha cabeça:

  • O preço do progresso: É impossível estar em Londres ou em qualquer outra cidade britânica e não ficar fascinada com a quantidade de coisas que existe à disposição da população. Falo de meios de transporte de ponta, ofertas de lazer intermináveis, até lavatórios de casa de banho que automaticamente deitam sabão nas nossas mãos e as secam após 10 segundos de lavagem. Ficamos verdadeiramente impressionados! Sim, isto é o primeiro mundo! Quem me dera que Portugal ou até mesmo o Brasil fossem assim. Bom, eu acho que é fácil para o Reino Unido ser um país tão desenvolvido quando se tem um passado colonialista tão forte, quando se interfere em assuntos internacionais de forma que isso possa ser favorável para ele. Sejamos honestos, toda a gente quer o melhor para si, mas teremos que fazer os outros sofrer para alcançar isso? Os fins justificam os meios, diria Maquiavel. Em Persepólis vemos os ingleses intervindo na política do Irão de forma a colocar no poder alguém que possa dar especial atenção aos seus interesses políticos, e tudo porquê: porque o Irão tem petróleo. Satrapi chega mesmo a dizer no livro: ninguém fez nada quando o Afeganistão foi invadido porque é um país pobre. Sim, na Inglaterra temos lavatórios automáticos que foram conseguidos através do sofrimento de outrem. Algures no Irão, ou até mesmo em outro país, alguém deve estar passando necessidades para que no ocidente nós possamos lavar as nossas mãos em tempo recorde.

  • Don’t judge me, dude!: Que atire a primeira pedra quem nunca teceu, mesmo que seja um inofensivo, comentário xenófobo em relação a qualquer nacionalidade. Lendo o Persépolis conhecemos a história de inúmeros iranianos que decidem sair do seu país por não aguentarem mais um regime opressor que os condena até pelas mais vãs actividades de lazer como xadrez (?!). Muitos foram para os EUA ou para a Europa, onde, acostumados à boa vida do seu país, onde desfrutavam de trabalhos bem remunerados e estatuto social, são tratados com indeferença, vivendo na marginalidade ou na precariedade de empregos de baixo rendimento. Sou imigrante agora e começo a compreender muitas coisas que antes não entendia e digo-vos, não é fácil estar num país que não é o vosso, agora imaginem que se mataram a estudar e respondiam pelo título de Doutor no vosso país e dão por vós a limpar sanitas noutro lado. Lembram-se das vezes que disseram: «Este sítio está infestado de romenos» … mas o que sabemos do passado dessas pessoas?! Sabemos lá se não foram torturados pelo Ceausescu, sabemos lá senão eram uma família de classe média alta que teve que fugir por alguma razão? Já pensaram o quão pouco sabemos das pessoas com quem nos cruzamos na rua, não sabemos nada do seu passado, do seu presente ou do seu futuro, somente nos resignamos à nossa ignorância para fazer os nossos injustos julgamentos…

  • One must educate oneself: O que eu mais gostei em todo o livro foi a franqueza com que a autora contou a sua própria história, mostrando-a como uma pessoa real, com as qualidades e defeitos humanos que vão para além da irrealidade dos heróis vampíricos de hoje em dia. Identifiquei-me bastante com ela no período em que ela, aos 14 anos foi enviada pelos pais para a Áustria, a fim de estudar e ficar longe do Irão durante o período da guerra com o Iraque. Muitas das coisas que ela passou naquela altura, e eu nem consigo imaginar-me a passar por isso aos 14 anos, estou a passar agora e isso trouxe-me algum conforto… no final tudo vai acabar bem. Acho que ela seguiu um percurso de vida que eu procuro para mim e agora, depois da graduação universitária e sem saber ao certo o que fazer da minha vida, cheguei a conclusão que talvez não queira fazer do trabalho com crianças uma coisa para o resto da vida. Para além de ser desgastante a nível nervoso, não quero acabar por ficar sem paciência para quando for a vez de ter os meus Gustavo, Alice (ou Letícia) e Albert (nomes pomposos, hein?). Ando pensando seriamente nas áreas de desenvolvimento comunitário e sustentabilidade, talvez por englobar temas que eu tanto gosto como a economia, globalização. Além de termos que nos educar, também temos que vir ao mundo para fazer alguma diferença, mesmo que seja a mais pequena possível.

domingo, 8 de agosto de 2010

O Pecado de Darwin


Hoje eu queria falar da minha experiência em Itália, queria falar de como adorei os italianos e me senti como se estivesse no Brasil, mas resolvi deixar isso para outra altura. Neste momento estou com vontade de escrever sobre outra coisa. Hoje estou com vontade de escrever sobre Darwin e a sua teoria da selecção natural.

A teoria da evolução das espécie de Darwin foi muito criticada na altura que surgiu, talvez porque tirava o protagonismo a Deus como criador da natureza e de tudo que a compõe, mas penso que dentro dessa teoria, aquela que deu mais do que falar e que foi, posteriormente, levada ao darwinismo social (para justificar as atrocidades do colonialismo e do nazismo) foi a da selecção natural: «apenas os mais fortes sobrevivem e a natureza encarregas-se de eliminar os fracos». Vemos constantemente isso acontecendo no mundo animal, naqueles documentários do National Geographic em que a manada de zebras foge em conjunto dos leões mas a mais fraca será sempre a presa... lembro-me de ficar com pena da pobre zebra, de querer saltar para dentro da televisão, de querer intervir, mas é assim que a natureza funciona - o leão precisa de se alimentar, certo? Pensando bem, talvez até fariamos o mesmo papel da natureza: imaginem que têm duas vacas mas so têm comida para uma, qual preferiam alimentar? Aquela que dá mais leite, certo? E quando uma gata tem uma ninhada e mata o mais fraco? Talvez o faça porque sabe que, à partida, ele não vai sobreviver? O que me lembra do filme «A escolha de Sophia?», em que ela, num campo de concentração, viu-se obrigada a escolher entre um dos seus dois filhos para o salvar e ela optou pelo forte, pois sabia que ele sobreviveria, deixando para trás o já enfermo e que estaria condenando à morte.

Mesmo que pratiquemos incoscientemente a teoria da selecção natural, a questão reside: porque odiamos tanto a teoria de Darwin? Eu penso que seja porque ela é uma teoria que vai contra a nossa noção de solidariedade. Afinal, os fracos não tem culpa de terem nascido fracos. Porque tem que padecer? Porque não tem direito à sua vez? Entra então novamente a ciência. Porque só o mais fortes poderão sobreviver para se puderem reproduzir e perpetuar a sua genética... como seria o mundo senão existisse a selecção natural? Estaria sobrelotado! Muita gente diz que as catástrofes naturais, as doenças e as guerras são uma selecção natural (embora a guerra seja completamente artificial), uma forma de seleccionar aqueles que estarão aptos a sobreviver e de impedir que haja carência de alimentos para todos, caso haja sobrelotação na terra. Eu tento entender isso, mas não deixo de sentir um nó na garganta quando vejo na televisão pessoas sendo arrastadas por tsunamis, lava consumindo cidades inteiras, pessoas definhando de fome, crianças padecendo de doenças incuráveis, bombas fazendo explodir edifícios... isso apela ao meu lado emocional e leva-me a dizer a mim mesma: «Deus, onde estás nessa altura? Porque estas pessoas? Qual foi o pecado delas? O de nascerem fracas?». Não consigo arranjar resposta para essas perguntas, mas talvez tire algum consolo das palavras que li na bíblia, no envagelho segundo Lucas:

"Bem aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus! Bem aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis saciados! Bem aventurados vós, que agora chorais, porque havereis de rir! (...). Mas ai de vós, os ricos, porque já tendes vossa consolação! Ai de vós, que agora tendes fartura, porque passareis fome! Ai de vós, que agora rides, porque tereis luto e lágrimas".

São bonitas palavras, ainda que, provavelmente, tenham servido para fazer uma lavagem cerebral a muitos pobres coitados.