
Hoje eu queria falar da minha experiência em Itália, queria falar de como adorei os italianos e me senti como se estivesse no Brasil, mas resolvi deixar isso para outra altura. Neste momento estou com vontade de escrever sobre outra coisa. Hoje estou com vontade de escrever sobre Darwin e a sua teoria da selecção natural.
A teoria da evolução das espécie de Darwin foi muito criticada na altura que surgiu, talvez porque tirava o protagonismo a Deus como criador da natureza e de tudo que a compõe, mas penso que dentro dessa teoria, aquela que deu mais do que falar e que foi, posteriormente, levada ao darwinismo social (para justificar as atrocidades do colonialismo e do nazismo) foi a da selecção natural: «apenas os mais fortes sobrevivem e a natureza encarregas-se de eliminar os fracos». Vemos constantemente isso acontecendo no mundo animal, naqueles documentários do National Geographic em que a manada de zebras foge em conjunto dos leões mas a mais fraca será sempre a presa... lembro-me de ficar com pena da pobre zebra, de querer saltar para dentro da televisão, de querer intervir, mas é assim que a natureza funciona - o leão precisa de se alimentar, certo? Pensando bem, talvez até fariamos o mesmo papel da natureza: imaginem que têm duas vacas mas so têm comida para uma, qual preferiam alimentar? Aquela que dá mais leite, certo? E quando uma gata tem uma ninhada e mata o mais fraco? Talvez o faça porque sabe que, à partida, ele não vai sobreviver? O que me lembra do filme «A escolha de Sophia?», em que ela, num campo de concentração, viu-se obrigada a escolher entre um dos seus dois filhos para o salvar e ela optou pelo forte, pois sabia que ele sobreviveria, deixando para trás o já enfermo e que estaria condenando à morte.
Mesmo que pratiquemos incoscientemente a teoria da selecção natural, a questão reside: porque odiamos tanto a teoria de Darwin? Eu penso que seja porque ela é uma teoria que vai contra a nossa noção de solidariedade. Afinal, os fracos não tem culpa de terem nascido fracos. Porque tem que padecer? Porque não tem direito à sua vez? Entra então novamente a ciência. Porque só o mais fortes poderão sobreviver para se puderem reproduzir e perpetuar a sua genética... como seria o mundo senão existisse a selecção natural? Estaria sobrelotado! Muita gente diz que as catástrofes naturais, as doenças e as guerras são uma selecção natural (embora a guerra seja completamente artificial), uma forma de seleccionar aqueles que estarão aptos a sobreviver e de impedir que haja carência de alimentos para todos, caso haja sobrelotação na terra. Eu tento entender isso, mas não deixo de sentir um nó na garganta quando vejo na televisão pessoas sendo arrastadas por tsunamis, lava consumindo cidades inteiras, pessoas definhando de fome, crianças padecendo de doenças incuráveis, bombas fazendo explodir edifícios... isso apela ao meu lado emocional e leva-me a dizer a mim mesma: «Deus, onde estás nessa altura? Porque estas pessoas? Qual foi o pecado delas? O de nascerem fracas?». Não consigo arranjar resposta para essas perguntas, mas talvez tire algum consolo das palavras que li na bíblia, no envagelho segundo Lucas:
"Bem aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus! Bem aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis saciados! Bem aventurados vós, que agora chorais, porque havereis de rir! (...). Mas ai de vós, os ricos, porque já tendes vossa consolação! Ai de vós, que agora tendes fartura, porque passareis fome! Ai de vós, que agora rides, porque tereis luto e lágrimas".
São bonitas palavras, ainda que, provavelmente, tenham servido para fazer uma lavagem cerebral a muitos pobres coitados.