quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Persepolis, o livro que mudou a minha visão


O The Guardian lançou uma lista de livros para ler antes de morrer, a qual eu posso afirmar, talvez de forma algo petulante, que já tive oportunidade de contemplar algum desses exemplares. Huxley, Camus, Flaubert, Orwell e afins, tudo autores que tornam a literatura numa arte por excelência, mas eu talvez acrescentaria a essa lista um livro que me tem feito pensar bastante nos últimos tempos: Persépolis, de Marjane Satrapi. Escrito no estilo banda desenhada que eu tanto adoro desde os quadradinhos de infância da Turma da Mônica e Asterix, Marjane mescla o humor com a crítica social, narrando a história dos últimos 40 anos do seu país de origem, o Irão (Irã em português do Brasil) e mostrando um país profundamente diferente das notícias com que somos constantemente bombardeados, notícias que pintam um povo terrorista e fundamentalista. É engraçado como me ajudou a clarear muitas coisas dentro da minha cabeça:

  • O preço do progresso: É impossível estar em Londres ou em qualquer outra cidade britânica e não ficar fascinada com a quantidade de coisas que existe à disposição da população. Falo de meios de transporte de ponta, ofertas de lazer intermináveis, até lavatórios de casa de banho que automaticamente deitam sabão nas nossas mãos e as secam após 10 segundos de lavagem. Ficamos verdadeiramente impressionados! Sim, isto é o primeiro mundo! Quem me dera que Portugal ou até mesmo o Brasil fossem assim. Bom, eu acho que é fácil para o Reino Unido ser um país tão desenvolvido quando se tem um passado colonialista tão forte, quando se interfere em assuntos internacionais de forma que isso possa ser favorável para ele. Sejamos honestos, toda a gente quer o melhor para si, mas teremos que fazer os outros sofrer para alcançar isso? Os fins justificam os meios, diria Maquiavel. Em Persepólis vemos os ingleses intervindo na política do Irão de forma a colocar no poder alguém que possa dar especial atenção aos seus interesses políticos, e tudo porquê: porque o Irão tem petróleo. Satrapi chega mesmo a dizer no livro: ninguém fez nada quando o Afeganistão foi invadido porque é um país pobre. Sim, na Inglaterra temos lavatórios automáticos que foram conseguidos através do sofrimento de outrem. Algures no Irão, ou até mesmo em outro país, alguém deve estar passando necessidades para que no ocidente nós possamos lavar as nossas mãos em tempo recorde.

  • Don’t judge me, dude!: Que atire a primeira pedra quem nunca teceu, mesmo que seja um inofensivo, comentário xenófobo em relação a qualquer nacionalidade. Lendo o Persépolis conhecemos a história de inúmeros iranianos que decidem sair do seu país por não aguentarem mais um regime opressor que os condena até pelas mais vãs actividades de lazer como xadrez (?!). Muitos foram para os EUA ou para a Europa, onde, acostumados à boa vida do seu país, onde desfrutavam de trabalhos bem remunerados e estatuto social, são tratados com indeferença, vivendo na marginalidade ou na precariedade de empregos de baixo rendimento. Sou imigrante agora e começo a compreender muitas coisas que antes não entendia e digo-vos, não é fácil estar num país que não é o vosso, agora imaginem que se mataram a estudar e respondiam pelo título de Doutor no vosso país e dão por vós a limpar sanitas noutro lado. Lembram-se das vezes que disseram: «Este sítio está infestado de romenos» … mas o que sabemos do passado dessas pessoas?! Sabemos lá se não foram torturados pelo Ceausescu, sabemos lá senão eram uma família de classe média alta que teve que fugir por alguma razão? Já pensaram o quão pouco sabemos das pessoas com quem nos cruzamos na rua, não sabemos nada do seu passado, do seu presente ou do seu futuro, somente nos resignamos à nossa ignorância para fazer os nossos injustos julgamentos…

  • One must educate oneself: O que eu mais gostei em todo o livro foi a franqueza com que a autora contou a sua própria história, mostrando-a como uma pessoa real, com as qualidades e defeitos humanos que vão para além da irrealidade dos heróis vampíricos de hoje em dia. Identifiquei-me bastante com ela no período em que ela, aos 14 anos foi enviada pelos pais para a Áustria, a fim de estudar e ficar longe do Irão durante o período da guerra com o Iraque. Muitas das coisas que ela passou naquela altura, e eu nem consigo imaginar-me a passar por isso aos 14 anos, estou a passar agora e isso trouxe-me algum conforto… no final tudo vai acabar bem. Acho que ela seguiu um percurso de vida que eu procuro para mim e agora, depois da graduação universitária e sem saber ao certo o que fazer da minha vida, cheguei a conclusão que talvez não queira fazer do trabalho com crianças uma coisa para o resto da vida. Para além de ser desgastante a nível nervoso, não quero acabar por ficar sem paciência para quando for a vez de ter os meus Gustavo, Alice (ou Letícia) e Albert (nomes pomposos, hein?). Ando pensando seriamente nas áreas de desenvolvimento comunitário e sustentabilidade, talvez por englobar temas que eu tanto gosto como a economia, globalização. Além de termos que nos educar, também temos que vir ao mundo para fazer alguma diferença, mesmo que seja a mais pequena possível.

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