segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Sociedade dos subsídios



Verdade seja dita, nos dias de hoje muitas sociedade industrializadas são as responsáveis pela predominância do parasitismo dentro das suas próprias nações. Talvez este texto vá roçar o extremismo político mas certos episódios que tenho presenciado aqui no Reino Unido têm-me feito mudar a minha opinião consideravelmente.

Sou uma forte apoiante da social-democracia e creio ser dever do Governo cuidar dos seus cidadãos desde o berço até à cova, deve zelar pelo seu bem-estar e ampará-los em caso de efemeridade ou de infortúnio. O grande exemplo disso são os países nórdicos, onde as pessoas pagam impostos exorbitantes mas isso é depois retribuido em educação e saúde gratiuta e etc. Presentemente, o Reino Unido está a enfrentar a crise do «welfare», do seu Sistema de Segurança Social, que durante anos ajudou a formar a cama dos ditos parasitas. Senão, vejamos: se temos uma criança recebemos um gordo «child benefit», que pode variar de acordo com o salário que temos (o que significa que quem não tem emprego receberá uma boa quantia), depois o Estado dá uma casa quando se tem a criança, há o subsídio de desemprego, o subsídio de saúde, o subsídio de invalidez, o subsídio de jovem mãe, bla bla bla. E nós perguntamos: «Quem paga isto?». São os cidadãos que trabalham e pagam os seus impostos. Eu fico bastante feliz comigo mesma se souber que o dinheiro dos meus impostos irá servir para pagar a pensão de um reformado que já fez o seu contributo para o seu país e agora tem o direito de descansar, ou para uma mãe solteira que precisa de comprar os livros escolares do filho, ou para um desempregado poder colocar comida na mesa, não me importo de pagar os meus impostos se for para isso, porque se estivesse nessa situação gostaria que fizessem o mesmo, contudo, recuso-me a pagar impostos que depois serão usados como subsídios para pessoas que não trabalham e não querem trabalhar, que passam o dia inteiro sentadas no sofá a ver televisão só tendo de se preocupar em todos os meses ir levantar o cheque da Segurança Social com os seus subsídios. E acreditem, aqui na Inglaterra ou em Portugal, há muita gente que vive assim.

Da primeira vez que estive na Inglaterra, em Fevereiro, conheci esta família inglesa cuja profissão da mulher era ter filhos, sim, "ter filhos". Cinco no total, um de cada pai. Por cada filho ela recebia dinheiro que lhe permitia ir de férias e a filha de 16 anos, também ela mãe, tinha um telemóvel topo de gama, algo contraditório para alguém que vive de benefícios. O que a mulher fazia o dia todo? Sentada confortavelmente na sala da sua casa oferecida pelo Estado, fumando cigarros e contando pontualmente às assistentes sociais a velha história melodramática: «oh, o meu marido abandonou-me, tenho estas crianças todas para criar» (snif snif, violinos de fundo). Sim, minha senhora, é eventualmente uma história triste, mas qual é a finalidade de trazer crianças ao mundo para puder tirar o proveito doa benefícios se trabalhar que é bom, nada? A minha mãe sempre trabalhou e criou duas filhas sozinhas e o Estado resolveu dar-lhe o subsídio mensal de «7 euros»! 7 Euros?! Nem para comprar um pacote de fraldas isso serve! E isto porque a minha mãe sempre trabalhou! Só precisaria da ajuda do Estado para comprar roupas para a filha mais nova, ou ajudar nas despesas dos livros e das propinas ou nas senhas da cantina, e eles dão 7 euros? É de fazer qualquer um se revoltar! Porquê que eu, que trabalho e pago os meus impostos só recebo 7 míseros euros enquanto há parasitas (porque não encontro outro termo para essas pessoas) a receber 100 euros por cada filho?

No passado fim de semana conheci esta mulher, uma portuguesa que viveu toda a vida em Inglaterra, fez a universidade, uma mulher inteligente que teve a má sorte de conhecer um homem que a abandonou depois de ela ter tido a segunda filha. OK, ela ia precisar da ajuda do Estado porque é a única fonte de rendimento de uma família monoparental, tal como a minha mãe. O Estado deu-lhe uma casa e ela pode-se dar ao luxo de viver há 10 anos, repito há 10 anos, sem trabalhar, recebendo todos os meses na sua caixa de correio a sua fonte de rendimento, e no entanto vejo-a com um bom carro e com um telemóvel touchpad, há algo errado aqui, não? Além do que, ela ainda me diz: «O Estado deu-nos um apartamento... é bonitinho, só que é muito apertado... tem dois quartos mas nós somos três e as miúdas tem que dormir juntas». Esperem aí... ela recebeu uma casa do Estado e ainda reclama! É muito pequeno?! Uma casa que lhe foi dada de mão beijada e ela ainda se queixa? What's wrong with these people? Muitos de nós vamos ter que trabalhar toda uma vida para conseguir comprar um apartamento e ela tem um só por ter tido duas filhas e ainda reclama (suspiro).

Em Portugal também ouvia histórias relativas ao subsídio de desemprego. Quando estamos desempregados recebemos (ou pelo menos antigamente recebiamos, porque agora com tantos subsídios o estado acabou por ficar na banca-rota) o subsídio de desemprego que equivale ao ordenado mínimo. Se eu trabalhei para uma empresa, ou uma escola ou seja lá o que for e fui despedido, será uma fonte de alívio puder contar com esse dinheiro para ajudar nas despesas da casa, mas depois também há aqueles que estão desempregado a receber o seu chequezinho, e quando chega uma carta do Fundo de Desemprego a pedir para comparecer a uma entrevista de trabalho, o que fazem é levar roupas andrajosas propositadamente para não serem selecionados e poderem voltar confortavelmente para o seu emprego de parasitas e puderem-se gabar disso nos café como se fosse uma proeza e tanto. Enquanto nos países nórdicos, segundo uma entrevista que vi no canal português SIC, estar no fundo de desemprego é considerado vergonhoso porque essas pessoas são vistas como não colaboradores para a sociedade. Eu gostava de viver num país que pensasse assim.

Não há direitos sem obrigações! Esse devia de ser o slogan. OK, essas pessoas estão a receber os subsídios, mas se o Estado fosse inteligente e, sobretudo, se a segurança social abrisse os olhos, poderiam chamar essas pessoas e dizer «meu amigo, você não está a trabalhar mas recebe o subsídio de desemprego, por isso, terá de prestar serviço comunitário: esta escola precisa de ser pintada, é preciso arranjar este jardim...» e por aí a fora. E no caso da segurança social, devia de ser mais inteligente ao ver os casos de subsídios infantis porque há muitos pais que acabam por ter os filhos pelos motivos errados, e há muitos casos desses por aqui, crianças que são torturadas e espancadas pelos próprios progenitores.

Quando houve aquela polémica toda na Internet por conta da discriminação com os nordestinos, uma das frases mais lidas era «esses nordestinos que vivem às custas do bolsa família». É certo que o Nordeste pode não ser a melhor zona em termos de agricultura, mas ainda assim tem muita coisa para ser feita e cabe ao Governo garantir que as pessoas tenha formação necessária para ocupar postos de trabalho que todo o mundo sabe estar em falta, o que é muito mais útil do que dar subsídios. Não é justo que uns trabalhem enquanto outros fiquem há sombra da bananeira.




quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Racismo é burrice!


Já dizia Gabriel, o génio pensador, «racismo é burrice». A eleição de Dilma Rousseff desencadeou uma enxurrada de comentários preconceitosos de cidadãos do sul/sudeste que culpabilizaram os brasileiros do norte/nordeste pela vitória da petista (no entanto, mesmo sem os Estados do Norte/Nordeste, a vitória de Dilma estaria mais que garantida). Aparentemente todo este alarido começou com um comentário no Twitter de Mayara Petruso, uma paulista estudante de Direito, que postou o seguinte: «Nordestino não é gente. Faça um favor a São Paulo, mate um nordestino afogado» e foi seguida fielmente por outros milhares de diversificados comentários que colocam à tona o já conhecido preconceito contra os nordestinos e deixam indignado quem quer que tenha estomâgo para ler os tweets escritos, exemplos perfeitos da magnitude que a ignorância pode alcançar. Eu acho que este assunto não deve ser deixado de lado e deve ser trabalhado, e é a razão pela qual, escrevo agora este texto, colocando de lado ideologias políticas (sendo eu uma apoiante da esquerda [embora tivesse preferido ver a Marina no poder]) e falando como a patriota que sou e emocionando-me de cada vez que oiço a brilhante composição de «Aquarela do Brasil», de Ary Barroso.

Ontem recebi um email da autoria de José Barbosa Júnior (que desconheço quem seja mas que gostaria de parebenizar) que dizia o seguinte (e citarei somente excertos significativos):

"(...) fiquei a pensar nas verdades ditas por esses jovens, tão emocionados em sua declaração contra os nordestinos . Eles tem razão! Os nordestinos devem ficar quietos. Cale a boca, povo do Nordeste. Que coisas boas vocês têm para oferecer ao resto do país? Ou vocês pensam que são os bons só porque deram à literatura brasileira nomes como o do alagoano Graciliano Ramos, dos paraibanos José Lins do Rego e Ariano Suassuna, dos pernambucanos João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira, ou então o cearense José de Alencar e a maravilhosa Rachel de Queiroz? Só porque o Maranhão nos deu Gonçalves Dias, Aluisio Azevedo, Arthur Azevedo, Ferreira Gullar, José Louzeiro e Josué Montello (...) e a Bahia, em seus encantos, nos deu como herança Jorge Amado, vocês pensam que podem tudo (acrescentaria o pernambucano Paulo Freire, pedagogo e filósofo e pedra basilar do meu curso universitário)? Isso sem falar no humor brasileiro, de quem sugamos de vocês os talentos do genial Chico Anysio, do eterno trapalhão Renato Aragão, de Tom Cavalcante e até mesmo do palhaço Tiririca, que foi eleito deputado federal mais votado pelos (pasmem) paulistas! E já que está na moda o cinema brasileiro, poderia falar ainda de atores como o cearense José Wilker, Luiza Tomé, Milton Moraes e Emiliano Queiróz, o inesquecível Dirceu Borboleta (...) e ainda os bahianos Lázaro Ramos e Wagner Moura, que será eternizado pelo "carioca" Capitão Nascimento de Tropa de Elite. Música? Não, vocês não poderiam ter coisa boa a nos oferecer, povo analfabeto e sem cultura... ou pensam que teremos que aceitar vocês pela simplicidade e majestade de Luiz Gonzaga, o rei do baião? Ou das lindas canções de Nando Cordel e dos seus conterrâneos pernambucanos Alceu Valença, Dominguinhos, Geraldo Azevedo e Lenine (eu acrescentaria Raul Seixas, o pai do Rock Nacional!)
(...) Ah, Nordestinos, além de tudo isso vocês ainda resistiram à escravatura? E foi daí que nasceu o mais famoso quilombo, símbolo da resistência dos negros à força opressora do branco que sabe o que é melhor para o nosso país? (...) Um conselho, pobres nordestinos. Vocês deveriam aprender connosco, povo civilizado do sul e do sudeste do Brasil. Nós sim temos coisas boas a lhes ensinar. Por que não aprendem conosco os batidões do «funk carioca»? Deveriam aprender e ver as suas meninas dançarem até ao chão enquanto são carinhosamente chamadas de "cachorras. Além disso, deveriam aprender também muito da estética musical de Tati Quebra-Barraco, Latino e Kelly Key. Sim, porque melhor que a asa branca bater asas e voar, é ter festa no apê e rolar bundalelê! (...) Ah! E sem falar numa coisa que vocês tem que aprender conosco, povo civilizado, branco e intelectualizado: explorar bem o trabalho infantil! Vocês não sabem, mas na verdade não está em jogo se é ou não trabalho infantil (isso pouco vale pra justiça), o que importa é o quanto esse trabalho infantil vai render. Ou vocês não perceberam ainda que suas crianças não podem trabalhar nas plantações, nas roças, etc. não porque isso as afasta da escola e é um trabalho horroroso e sujo, mas na verdade é porque ganha pouco. Bom mesmo é a menina deixar de estudar pra ser modelo e sustentar os pais, ser atriz mirim ou cantora e ter toda a sua vida totalmente modificada, mesmo que não tenha estrutura psicológica pra isso... mas o que importa é que vão encher o bolso e nunca precisarão do Bolsa-Família, daí é facil criticar quem precisa!

Minha mensagem é a seguinte: Calem a boca, nordestinos! Calem a boca, porque vocês não precisam de se rebaixar e tentar responder a tantos absurdos de gente que não entende o que é, mesmo sendo abandonado por tantos anos pelo próprio país, vocês tiraram tanta beleza e poesia das mãos calejadas e das peles ressecadas de sol a sol. Calem a boca e deixem quem não tem nada que dizer jogar suas cartas ao vento. Não deixem que isso os tire de sua posição majestosa na construção desse povo maravilhoso de tantas cores, sotaques, relegiões e gentes. Calem a boca porque a história desse país responderá por si mesma a importância e a contribuição que vocês nos legaram, seja na literatura, música, nas artes cênicas ou em quaisquer situações em que a força do seu povo falou mais alto (...). Que o Deus de todos os povos, as raças, tribos e nações os abençoe, queridos irmãos nordestinos!».

São sem dúvida belas palavras que deviam servir para calar a boca de ignorantes que, alienados por uma media que mostra um Brasil que se resume aos estúdios da Globo e ao eixo São Paulo-Rio de Janeiro, só sabem defecar pela boca uma torrente de ideias pré-concebidas e sem qualquer tipo de fundamento. Aliás, passando uma vista de olhos pelos tweets coletados pelo site «Diga Não à Xenofobia» dá claramente para traçar o perfil dos seus autores, jovens de classe média alta, fiéis consumidores de Malhação que que consideram Cine e Restart como uma das oitavas maravilhas do mundo. Enfim!

O Brasil é um mundo! À semelhança dos Estados Unidos, temos proporções continentais e englobamos uma diversidade cultural estontenante. É díficil tentar ver semelhanças entre Nova Iorque e o Texas, ou a Florida e a Califórnia e o Michigan ou o Alaska, o mesmo é válido para o Brasil. O Sul parece uma amostra de uma Alemanha perdida no tempo, totalmente divergente do cenário nordestino ou mesmo do Norte. O importante é o que cada um desses estados que englobam a nossa Pátria Amada contribuiu para a sua história. O Sul nos deu João Goulart, Luís Carlos Prestes e até mesmo Getúlio Vargas, na música nos presentou com as belíssimas Elis Regina e Adriana Calcanhoto e na dramaturgia nacional com Glória Menezes, entre outras figuras. Do sudeste vieram os meus ídolos Amácio Mazzaropi (considerado o Charlie Chaplin brasileiro), Adoniran Barbosa, Cartola, Noel Rosa, Tom Jobim, Chico Buarque, Heitor Villa-Lobos, Chiquinha Gonzaga e Vinicius de Moraes, sem contar com importantes figuras da história nacional como Juscelino Kubitchek e Alberto Santos Dumont e os aclamados modernistas Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Anita Malfatti e Tarsilla do Amaral, que deram à corrente artística moderna um rosto tropical brasileiro. Na região Centro-Oeste falemos de Jânio Quadros, Wolf Maya ou Patrícia Pilar. Do nordeste veio Deodoro da Fonseca, proclamador da República e primeiro presidente brasileiro, Assis Chateubriand, e grandes músicos como Simone, Gal Costa e os meus muito queridos Gilberto Gil e Djavan. E a região Norte, muitas vezes também esquecida e sarcasticamente tratada como a terra dos índios (como se ser índio ou descendente fosse um facto vergonhoso, quando na verdade são os indigenas aqueles que mais direito têm a este solo, pois são eles os habitantes naturais e senhores por direito desta terra à qual chamamos Brasil) de onde provêm Inglês de Sousa e José Veríssimo, fundadores da Academia Brasileira de Letras, Samuel Benchimol e Fafá de Bélem. Entre outros, cada região contribuiu um pouco para esse mosaico cultural que é o Brasil. E ao invés de ficarmos procurando o que nos torna diferentes, seja porque os do sul tem o olho mais claro porque são descendentes de alemães ou italianos e dos norte e nordeste são índios ou negros, seja porque no sul o clima é mais propício à agricultura do que no nordeste, seja porque motivo for, deviamos de estar mais preocupados com aquilo que nos torna iguais e nos faz ser tão bem agraciados mundo afora. Perguntando a muita gente como definiria um brasileiro, talvez dissessem: «são um povo alegre, optimista apesar das contrariedades e com uma grande criatividade», provavelmente não estariam focalizados em dizer «espere, os do sul/sudeste são assim ... e os do norte/nordeste são assim ...». Se conseguirmos deixar de lado esses preconceitos idiotas e sem noção, poderemos trabalhar em conjunto para uma coisa que todos almejamos: um bom nível de vida e o desenvolvimento do nosso país, e isso só será possível se todo o Brasil trabalhar em conjunto, não se toda a atenção se centralizar somente na região sul e sudeste. É verdade comprovada que o Brasil está mudando, está aparecendo na media internacional pelas razões certas que não sejam os bandidos que entraram no hotel e mataram um monte de gringos, a mãe que trocou o filho por uma saca de arroz ou outras notícias... o Brasil de hoje, certamente não é o mesmo que a minha mãe deixou há 20 anos atrás, é um Brasil para o qual eu me sinto motivada a voltar. É um Brasil que deve aprender a usar de forma inteligente uma das maiores riquezas que tem: o seu povo!

E finalizo este texto com uma lágrima no canto do olho (que patriota idiota!), simplesmente acredito no meu país e dizem que o sonho comanda a vida e convido-vos a ouvir a música «Norte e Nordeste» do rapper cearense Rapadura, meu amigo e "irmão" e que eu vejo orgulhosamente brilhar no cenário musical nacional.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Upgrade

Sim, estou viva! Estive afastada da blogsfera durante um longo período mas aqui regresso, talvez porque o meu cérebro já andava a precisar de regorjitar certos pensamentos que pululam pela minha mente. Depois de cinco meses a residir em Inglaterra, as coisas finalmente começam a caminhar sobre carris, ainda que à velocidade da primeira máquina a vapor de James Watt.

Durante ester período estive constantemente embrenhada em localizar outras pessoas na mesma situação que eu, au-pairs no Surrey, a fim de poder partilhar algumas experiências e desabafos e ter companhia durante as horas de almoço. Algumas surpresas foram bastante agradáveis, outras nem tanto, mas é bom poder conversar com pessoas de outros países e constatar que, no fundo, estamos todos no mesmo barco. Pode-se dizer que, pelo menos, já tenho um grupinho fixo de pessoas com quem afogar-me em sumptuosos capuchinos enquanto reclamamos das nossas hostfamilies.


Além disso, em Outubro fiz o meu curso de preparação para o exame IELTS, que me irá capacitar para concorrer a qualquer universidade na Inglaterra a fim de prosseguir nos meus estudos, foi mais uma prova de que consigo falar e compreender inglês de forma fluente. As surpresas foram igualmente agradáveis e, além de ter passado 4 sessões de 3 horas com uma turma maioritariamente asiática, tive a oportunidade de observar de perto o ambiente académico britânico. Tive resultado de 6.5 no exame (sendo a nota mais alta 9).



Como é óbvio, também aproveitei para passear um pouco pela Inglaterra, conhecendo os seus museus e a sua história, procurando conhecer um pouco da sua cultura.



E claro, no fim de semana passado tive a oportunidade de ver a minha banda favorita em show. Tirando as saudades de poder ter a minha própria casa e da família e amigos, a vida não podia correr melhor.


Como é óbvio, também tenho acompanhado de perto a situação no meu país (Brasil), quer seja pelas notícias sensacinalista da Record, quer pelos períodicos online. Estou extremamente satisfeita com a vitória da Dilma e penso que, se ela continuar os trabalhos do Lula, esse país anda pra frente. Ao mesmo tempo, estou profundamente triste com a torrente de comentários preconceitosos contra os brasileiros do norte e nordeste por conta da vitória da petista, que colocam à tona uma face vergonhosa do povo brasileiro (mas que eu devo dizer, é um problema semelhante em todo o lado do mundo: para os lisboetas o resto de Portugal ficou parando no tempo; há uma visão semelhante à dos nordestinos aqui na inglaterra com os habitantes do norte do Reino Unido), mas isso ficará para outro post. Prometo que agora voltei para ficar =).

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Meu lugar...


Depois de dois meses de uma vida de exlcusão social que rondava uma existência eremita finalmente fui até Portugal passar duas noites, um tempo demasiado curto quando penso no valor exorbitante da passagem. De qualquer maneira, e colocando o dinheiro de lado, creio ter sido uma boa experiência voltar a Portugal rever os amigos e a família e libertar-me das teias de aranha que me prendiam a língua (acho que em toda a minha vida nunca fui tão eloquente como nestes três dias). Contudo, não consegui deixar de sentir uma certa tristeza e confusão interna.

Após dois meses a viver numa casa com uma rotina totalmente divergente da minha, achei estranho regressar à minha antiga residência onde a rotina não é tão demarcada e onde, por vezes, a anarquia impera. Foi estranho ver-me, subitamente, com a oportunidade de poder fazer o que eu queria sem ter de estar constantemente a olhar para o relógio para saber o que deveria fazer a seguir. Depois desta experiência toda como au-pair acabar, quero saber como me libertarei da sombra deste regime quase militar ao qual estou encarcerada.

Em segundo lugar, não consegui deixar de me sentir estranha ao entrar no meu quarto e ver as coisas que havia deixado para trás. Não consegui parar de pensar que não me sentia à vontade num lugar que sempre fora o meu refúgio. E agora, regressando a Inglaterra e olhando para o quarto que tenho aqui, não consigo deixar de sentir a estranhez de saber que aqui também não pertenço e de sentir a falta de tudo o que deixei para trás.

Esta viagem a Portugal foi deveras alegre, mas encheu-me de dúvidas quanto ao lugar onde pertenço. É bastante difícil sentir-me como uma peça de puzzle inadequada aos dois lugares, uma nómada sem rumo, procurando o lugar onde se sente melhor. No fim dou por mim a perguntar qual é o meu lugar... É quem disse que crescer é fácil?

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Persepolis, o livro que mudou a minha visão


O The Guardian lançou uma lista de livros para ler antes de morrer, a qual eu posso afirmar, talvez de forma algo petulante, que já tive oportunidade de contemplar algum desses exemplares. Huxley, Camus, Flaubert, Orwell e afins, tudo autores que tornam a literatura numa arte por excelência, mas eu talvez acrescentaria a essa lista um livro que me tem feito pensar bastante nos últimos tempos: Persépolis, de Marjane Satrapi. Escrito no estilo banda desenhada que eu tanto adoro desde os quadradinhos de infância da Turma da Mônica e Asterix, Marjane mescla o humor com a crítica social, narrando a história dos últimos 40 anos do seu país de origem, o Irão (Irã em português do Brasil) e mostrando um país profundamente diferente das notícias com que somos constantemente bombardeados, notícias que pintam um povo terrorista e fundamentalista. É engraçado como me ajudou a clarear muitas coisas dentro da minha cabeça:

  • O preço do progresso: É impossível estar em Londres ou em qualquer outra cidade britânica e não ficar fascinada com a quantidade de coisas que existe à disposição da população. Falo de meios de transporte de ponta, ofertas de lazer intermináveis, até lavatórios de casa de banho que automaticamente deitam sabão nas nossas mãos e as secam após 10 segundos de lavagem. Ficamos verdadeiramente impressionados! Sim, isto é o primeiro mundo! Quem me dera que Portugal ou até mesmo o Brasil fossem assim. Bom, eu acho que é fácil para o Reino Unido ser um país tão desenvolvido quando se tem um passado colonialista tão forte, quando se interfere em assuntos internacionais de forma que isso possa ser favorável para ele. Sejamos honestos, toda a gente quer o melhor para si, mas teremos que fazer os outros sofrer para alcançar isso? Os fins justificam os meios, diria Maquiavel. Em Persepólis vemos os ingleses intervindo na política do Irão de forma a colocar no poder alguém que possa dar especial atenção aos seus interesses políticos, e tudo porquê: porque o Irão tem petróleo. Satrapi chega mesmo a dizer no livro: ninguém fez nada quando o Afeganistão foi invadido porque é um país pobre. Sim, na Inglaterra temos lavatórios automáticos que foram conseguidos através do sofrimento de outrem. Algures no Irão, ou até mesmo em outro país, alguém deve estar passando necessidades para que no ocidente nós possamos lavar as nossas mãos em tempo recorde.

  • Don’t judge me, dude!: Que atire a primeira pedra quem nunca teceu, mesmo que seja um inofensivo, comentário xenófobo em relação a qualquer nacionalidade. Lendo o Persépolis conhecemos a história de inúmeros iranianos que decidem sair do seu país por não aguentarem mais um regime opressor que os condena até pelas mais vãs actividades de lazer como xadrez (?!). Muitos foram para os EUA ou para a Europa, onde, acostumados à boa vida do seu país, onde desfrutavam de trabalhos bem remunerados e estatuto social, são tratados com indeferença, vivendo na marginalidade ou na precariedade de empregos de baixo rendimento. Sou imigrante agora e começo a compreender muitas coisas que antes não entendia e digo-vos, não é fácil estar num país que não é o vosso, agora imaginem que se mataram a estudar e respondiam pelo título de Doutor no vosso país e dão por vós a limpar sanitas noutro lado. Lembram-se das vezes que disseram: «Este sítio está infestado de romenos» … mas o que sabemos do passado dessas pessoas?! Sabemos lá se não foram torturados pelo Ceausescu, sabemos lá senão eram uma família de classe média alta que teve que fugir por alguma razão? Já pensaram o quão pouco sabemos das pessoas com quem nos cruzamos na rua, não sabemos nada do seu passado, do seu presente ou do seu futuro, somente nos resignamos à nossa ignorância para fazer os nossos injustos julgamentos…

  • One must educate oneself: O que eu mais gostei em todo o livro foi a franqueza com que a autora contou a sua própria história, mostrando-a como uma pessoa real, com as qualidades e defeitos humanos que vão para além da irrealidade dos heróis vampíricos de hoje em dia. Identifiquei-me bastante com ela no período em que ela, aos 14 anos foi enviada pelos pais para a Áustria, a fim de estudar e ficar longe do Irão durante o período da guerra com o Iraque. Muitas das coisas que ela passou naquela altura, e eu nem consigo imaginar-me a passar por isso aos 14 anos, estou a passar agora e isso trouxe-me algum conforto… no final tudo vai acabar bem. Acho que ela seguiu um percurso de vida que eu procuro para mim e agora, depois da graduação universitária e sem saber ao certo o que fazer da minha vida, cheguei a conclusão que talvez não queira fazer do trabalho com crianças uma coisa para o resto da vida. Para além de ser desgastante a nível nervoso, não quero acabar por ficar sem paciência para quando for a vez de ter os meus Gustavo, Alice (ou Letícia) e Albert (nomes pomposos, hein?). Ando pensando seriamente nas áreas de desenvolvimento comunitário e sustentabilidade, talvez por englobar temas que eu tanto gosto como a economia, globalização. Além de termos que nos educar, também temos que vir ao mundo para fazer alguma diferença, mesmo que seja a mais pequena possível.

domingo, 8 de agosto de 2010

O Pecado de Darwin


Hoje eu queria falar da minha experiência em Itália, queria falar de como adorei os italianos e me senti como se estivesse no Brasil, mas resolvi deixar isso para outra altura. Neste momento estou com vontade de escrever sobre outra coisa. Hoje estou com vontade de escrever sobre Darwin e a sua teoria da selecção natural.

A teoria da evolução das espécie de Darwin foi muito criticada na altura que surgiu, talvez porque tirava o protagonismo a Deus como criador da natureza e de tudo que a compõe, mas penso que dentro dessa teoria, aquela que deu mais do que falar e que foi, posteriormente, levada ao darwinismo social (para justificar as atrocidades do colonialismo e do nazismo) foi a da selecção natural: «apenas os mais fortes sobrevivem e a natureza encarregas-se de eliminar os fracos». Vemos constantemente isso acontecendo no mundo animal, naqueles documentários do National Geographic em que a manada de zebras foge em conjunto dos leões mas a mais fraca será sempre a presa... lembro-me de ficar com pena da pobre zebra, de querer saltar para dentro da televisão, de querer intervir, mas é assim que a natureza funciona - o leão precisa de se alimentar, certo? Pensando bem, talvez até fariamos o mesmo papel da natureza: imaginem que têm duas vacas mas so têm comida para uma, qual preferiam alimentar? Aquela que dá mais leite, certo? E quando uma gata tem uma ninhada e mata o mais fraco? Talvez o faça porque sabe que, à partida, ele não vai sobreviver? O que me lembra do filme «A escolha de Sophia?», em que ela, num campo de concentração, viu-se obrigada a escolher entre um dos seus dois filhos para o salvar e ela optou pelo forte, pois sabia que ele sobreviveria, deixando para trás o já enfermo e que estaria condenando à morte.

Mesmo que pratiquemos incoscientemente a teoria da selecção natural, a questão reside: porque odiamos tanto a teoria de Darwin? Eu penso que seja porque ela é uma teoria que vai contra a nossa noção de solidariedade. Afinal, os fracos não tem culpa de terem nascido fracos. Porque tem que padecer? Porque não tem direito à sua vez? Entra então novamente a ciência. Porque só o mais fortes poderão sobreviver para se puderem reproduzir e perpetuar a sua genética... como seria o mundo senão existisse a selecção natural? Estaria sobrelotado! Muita gente diz que as catástrofes naturais, as doenças e as guerras são uma selecção natural (embora a guerra seja completamente artificial), uma forma de seleccionar aqueles que estarão aptos a sobreviver e de impedir que haja carência de alimentos para todos, caso haja sobrelotação na terra. Eu tento entender isso, mas não deixo de sentir um nó na garganta quando vejo na televisão pessoas sendo arrastadas por tsunamis, lava consumindo cidades inteiras, pessoas definhando de fome, crianças padecendo de doenças incuráveis, bombas fazendo explodir edifícios... isso apela ao meu lado emocional e leva-me a dizer a mim mesma: «Deus, onde estás nessa altura? Porque estas pessoas? Qual foi o pecado delas? O de nascerem fracas?». Não consigo arranjar resposta para essas perguntas, mas talvez tire algum consolo das palavras que li na bíblia, no envagelho segundo Lucas:

"Bem aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus! Bem aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis saciados! Bem aventurados vós, que agora chorais, porque havereis de rir! (...). Mas ai de vós, os ricos, porque já tendes vossa consolação! Ai de vós, que agora tendes fartura, porque passareis fome! Ai de vós, que agora rides, porque tereis luto e lágrimas".

São bonitas palavras, ainda que, provavelmente, tenham servido para fazer uma lavagem cerebral a muitos pobres coitados.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Entre o dever e o prazer

Já estou na Inglaterra há quase um mês e a vontade de escrever tem sido quase nula, quiçá por as ideias ainda não estarem devidamente ordenadas dentro da minha cabeça de maneira a contruir um texto coerente.

Da maneira como as coisas aconteceram desde que estive em Inglaterra pela última vez, foi tão repentino que me deixou deveras extasiada. Eu tinha regressado a Portugal com a minha moral completamente embaixo, semelhante à da Alemanha perante o Tratado de Versalhes e, em menos de um mês, recebo esta proposta para ser au-pair na Inglaterra, tomando conta de três crianças e com a possibilidade de fazer a minha pós-graduação, sendo esta custeada pelos meus patrões. Quando a minha patroa me disse que ia oferecer-me a vaga, não coube em mim de felicidade... Será que foi destino? Ou Deus quis que as coisas corressem mal da primeira vez para que eu tivesse esta segunda oportunidade? É daquelas respostas que deixamos ao critério das ciências ocultas.

O único problema é que, há medida que os dias se iam arrastando até ao dia da minha partida (24 de Junho), fui-me acostumando à minha antiga vida em Portugal: a equipa de trabalho coesa,, a vida social extremamente preenchida, concertos e festivais e um ou outro rendez-vous para me fazer deliciar com os prazes desses affairs espontâneos. Pela primeira vez pude dizer que estava plenamente feliz e a minha última semana em Portugal pude saborar aquela afamada hipérbole de «viver a vida num só dia»... yeah, I was unstopable. Mas então a realidade sobre a forma da minha mãe lembrou-me de que estava na hora de assumir as responsabilidades e a resignação tomou contada de mim. Duas horas antes do voo e eu ainda estava fazendo as malas (talvez porque eu, nop fundo, não queria ter de fechar aquele zipper). Ainda não conseguia acreditar que eu ia sair de Portugal justamente na altura em que a verdadeira diversão ia começar... em pleno Verão, onde as festas, as bebedeiras, as soirées, os convívios e a luxúria são o prato do dia... It was time to say goodbye.

E aqui estoui eu, desde então, confinada a Guildford, no Surrey, numa casa com 7 quartos, vivendo o countrydream que os meus patrões tanto almejam. A primeira semana fpi impossível de passar sem enterrar a cabeça na almofada e chorar desalmadamente qual uma carpideira. Foi meio difícil adaptar-me a esta zona, conhecida or ser aquela em que moram os grandes milionários, tendo de estar longe daqueles que amo e sem ter um amigo com quem sair, mas tive quie engolir isso tudo... é o meu dever...

Não consigo pensar em pessoas mais bondosas que os meus patrões... pelo menos ela é o protótipo da self-madewoman: filha de imigrantes portugueses, começou a trabalhar cedo, fazia part-times para comprar o apartamento que adquiriu em Londres aos 27 anos de idade e é muito conhecida no ramo financeiro da City. São aquelas pessoas ricas que obtiveram a sua fortuna com esforço e sabem dar valor àqueles que trabalham e que querem algo melhor para si. Eles preocupam-se com o meu bem-estar e querem dar-me a oportunidade de fazer algo melhor pela minha vida, parece até coisa de filme, o único problema é que vou ter que renunciar durante algum tempo a algo que eu preservo muito: a minha liberdade. Porque mesmo os meus patrões sendo pessoas excepcionais eu tenho igualmente de me lembrar que trabalho para eles e servir os outros não é propriamente uma tarefa fácil, principalmente quando a pessoa é totalmente o oposto de ti e insiste em que as coisas devem ser feitas do jeito dela, o que também não ajuda muito ao facto de vivermos todos nesta espaçosa casa onde parece que estou constantemente a trabalhar, mesmo quando o expediente terminou ou de só falar quando interpelada porque não tenho mais ninguém com quem conversar loquazmente como antes fazia... às vezes eu penso que a única altura em que consigo ser eu mesma é quando estou no meu quarto, sozinha dentro da minha própria cabeça, ainda que oiça o libeiro burburinho de uma voz repreensiva e impossível de agradar... é quase como ter um daqueles austeros professores da época vitoriana a bater-nos constantemente nas mãos com uma vara sempre que damos a resposta errada... eu simplesmente tenho saudades da altura em que eu podia viver a minha vida da forma anárquica que sempre foi sem estar enclausurada dentro de uma existência comandada por exigentes rotinas onde todos os dias parecem iguais... serei eu uma hippie?

E depois tem as vozes sábias que me dizem que este sacrifício que estou fazendo será recompensado com o dinheiro que irei colocar de lado durante o tempo em que aqui estou... com a oportunidade de estudar e com a oportunidade de conhecer coisas novas, ainda que os dias se tenham passado de forma irritantemente mundana. Tenho que fazer um total submissão do prazer ao dever porque agora é o meu futuro que está em jogo., ainda que, aos 21 anos as minhas hormonas reclamem por festas onde terei histórias para contar aos meus netos, afinal só se tem 21 anos uma vez na vida... bom, para ter netos terei que me aguentar neste trabalho ou caso contrário não terei dinheiro nem para me dar ao luxo de ter filhos. É altura de pensar no futuro e isso implica fazer sacrifícios, uma total devoção ao dever que me faz descobrir a razão pela qual a maior parte das familias reais não passam de um bando de frustados... e todas as vezes que eu encosto a cabeça na minha almofada antes de dormir, digo para mim mesma: «I will be good»

domingo, 20 de junho de 2010

Here we go again


Tenho sido extremamente negligente com o meu blog nos últimos tempos. Talvez porque tenha querido seguir o conselho da minha sempre muito preocupada mãe, a qual tem andado algo concertada com a minha vida social ser muitas vezes posta em segundo plano junto desse vício chamado computador. Por isso mesmo tenho passado mais tempo em grandes farras, em conversas eloquentes e em episódios que para aqui não dizem respeito ao invés de me dedicar a escrever loquazes textos que ficam aquém dos ensaios de grandiosos escritores como Saramago (que já agora, Descanse em Paz).

Isto tudo para dizer que, nesta quinta-feira estarei regressando novamente a Inglaterra. Já vejo o deja vu a desenrolar-se na minha cabeça. Voltar a empacotar as coisas. Escolher a roupa para levar, os livros para ler, dizer adeus a toda a gente, rezar muito para que tudo corra bem desta vez e depois apanhar os meios de transporte que eu já muito bem conheço. Não sou tão religiosa como os Romanov mas que, desta vez, Deus me guie e me ajude. Pelo menos desta vez as coisas serão diferentes. Já tenho trabalho fixo e um lugar para ficar. Vou conhecer de perto a vida de uma família inglesa, vou ver como vive a classe alta (esse bicho em vias de extinção), vou estudar e já me programei para fazer voluntariado em comunidades carencidadas nos dias da minha folga. E já desenvolvi umas teorias para partilhar com as pessoas que fielmente me lêem.

sábado, 1 de maio de 2010

Silly Stories of UK - Onde fica o Nº 28?

Bom, muitos de vocês devem ter lido a minha odisseia por Clapham e como os acontecimentos dessa noite foram infrutíferos. O problema, é que as peripécias não se ficam por aí, e até eu encostar a minha cabeça numa almofada em Canning Town ainda se sucederam coisas que parecem saídas de uma comédia de baixo rendimento.


Depois de desligar o telefone, terminando assim a chorosa conversa com a minha mãe, encaminhei-me até à paragem de autocarro mais próxima por não me apetecer andar a horas tardias por aquelas ruas que lembravam os cenários dos assassinatos de Jack O Estripador. Felizmente tive sorte e encontrei uma paragem ali perto e só me restava aguardar junto dos outros passageiros, chorando em silêncio pela minha má sorte e sendo olhada com comiseração (de mochila às costas e cara que não denota minha verdadeira idade, provavelmente deviam tomar-me como alguma adolescente escorraçada de casa pelos pais).

Pouco tempo depois apareceu o N44 e subi para o seu primeiro andar, observando as luzes da invicta cidade reflectidas pelo Rio Tamisa e revivendo a minha vida em retrospectiva, trespassada por uma forte tristeza (só faltava a musiquinha estilo Edith Piaf e parecia que estava num filme francês). Cheguei à Estação de Victoria (o meu ponto de encontro em Londres) consultando compulsivamente o relógio, tinha os passos contados dado que o último metro era às cinco para a meia-noite e a última coisa que me faltava era ter que dormir na estação (o que, no fundo, talvez desse alguma veracidade à minha história de adolescente foragida). Felizmente tive sorte e fiz tranquilamente o percurso na Jubilee Line, àquela hora apinhada de gente que regressava ao conforto dos seus lares, fitando o vazio e rodeada de outros tantos protuberantes olhares vazios, protótipos da frieza citadina.

Cheguei a Canning Town uns dez minutos depois da meia-noite com o estômago a roncar qual desafinada orquestra. Poderia ir procurar algum local aberto para comer, mas já estava cansada e a verdade é que Canning Town não é dos locais mais apetecíveis para se passear à noite. Na verdade, enquanto apanhava mais um autocarro até à casa da minha prima (juro que já não podia com transportes públicos), observava aqueles edifícios degradados e as ruas sujas tão diferentes das do centro de Londres e pensava em como esta cidade poderia ser acabada de sair do romance de Charles Dickens “A Tale of Two Cities”. «Era o melhor dos tempos (para Westminster, Nothing Hill e tantas outras zonas posh de Londres), era o pior dos tempos (para Canning Town, Bow ou outra zona degradada da capital britânica)». Era como estar no Bronx, mas na Europa e a última coisa que me faltava acontecer naquele dia era ser vítima de algum gang.


Pela janela pude vislumbrar que a maior parte dos restaurantes (incluindo o McDonald’s) estavam fechados e só me restava ir para cama com fome e aguardar até o dia seguinte, numa atitude de auto-punição (até porque não sou do tipo de pessoa que assalta a cozinha dos outros). Apeei-me no meu destino e olhei à minha volta, tirando um pub de onde provinham as risadas alegres de quem já bebera em demasia, não se via vivalma. Foi então que ajustando os óculos à minha cara, vi aquele letreiro que, para mim, reluzia como um letreiro de Las Vegas, «The King of Town» penso ser o nome, com o logótipo de um sorridente frango (o que deve significar o quê, que o frango estava feliz antes de virar um hambúrguer?). Entrei no estabelecimento, aquela hora frequentado por noctívagos que me faziam lembrar personagens do teledrama britânico EastEnders, e pedi um menu cheeseburguer que me custou 2,50 libras. Vendo os clientes entrarem e saírem, muitos olhando-me com curiosidade, afinal, uma jovem nova por aquelas bandas, de mochila às costas devia de despertar curiosidade. Deliciando-me com o hambúrguer, que teve gosto a ouro para mim, senti a minha auto-estima regressar vagarosamente, ao mesmo tempo que o meu corpo absorvia as poucas proteínas naquela refeição. Senti-me como uma personagem de algum filme do James Dean ou do Marlon Brando em inicio de carreira… era como se estivesse no livro de Jack Kerouac e, por escassos momentos até apreciei como seria a vida de um hippie ou de um viajante de mala às costas, um nobre vagabundo… até ser trazida à realidade pelo indiano que administrava o King of Town, «We’re gonna close, mate».


Atravessei a estrada e caminhei pela rua da casa da minha prima afastada, a grande velocidade. Era pouco iluminada e a sensação de que a algum instante ia sair alguém da escuridão com uma faca em punho e dizer «Give me ya money, bitch», não me saía da cabeça. Lembrava-me do caminho que fizera de tarde e sabia que ela morava no número 28, mas a verdade é que à noite, a pouca iluminação e os meus óculos que já não servem muito para a minha miopia em ascensão, já não sabia bem qual era a porta dela… lembrava-me que era uma das primeiras por isso decidi bater à porta daquele que supôs ser o número 28. Uns dois minutos depois de ter batido à porta vigorosamente ouvi passos na escada e uma voz em reclamo… a porta abriu-se e um careca quarentão de ar ensonado espreitou pelo ferrolho. «WTF», pensei. Sabia que a minha prima tinha três filhos, mas não conhecia o marido dela, por isso podia bem ser aquele tipo.


«Yes», disse ele profundamente irritado. Tinha cara de quem tivera um sonho delicioso e que eu lhe interrompera esse prazer. «Uuh… Sandra!?», balbuciei eu, sentindo-me verdadeiramente idiota. «Aqui não vive nenhuma Sandra», disse ele. Foi como se me dessem um soco no estômago. «Sorry, sir, I made a mistake», disse eu ao mesmo tempo que ia recuando, receosa. E se o tipo me fosse bater com a vassoura, tomando por alguma sem-abrigo a importunar os cidadãos decentes. Comecei a correr, até encontrar o número 28. Afinal batera no número 32!


No dia seguinte, quando saí de manhã para dar um passeio pela City, encontrei o homem à porta de casa acendendo um cigarro na companhia do amigo (será que são parentes da Mafia, pensei, e me vão mandar desta para melhor). «How are ya?», perguntou ele mal me viu. Bolas, pensei, ele reconheceu-me e achei melhor pedir desculpas. «Foi a si que eu bati ontem à porta?» «Sim». «Desculpe, sir, mas era de noite e eu confundi as portas», e corei a olhos vistos. Em vez de reclamações, as gargalhadas irromperam como bombas, no fundo a situação era algo cómica. «That’s fine, mate», disse o homem ainda rindo. «Thank you sir, have a nice weekend», disse eu antes de me dirigir à paragem. Caminhando e ainda ouvindo os risos atrás de mim, pensei… um dia ainda vou ver a minha biografia virar filme e com a Emily Blunt a fazer de mim.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Silly Stories of UK - Odisseia em Clapham


Rubrica trazendo algumas aventuras vividas no Reino Unido.

26 de Março. Sexta-feira. 14:30. Lá estava eu no Metrobus, autocarro de Crawley, a caminho do Aeroporto de Gatwick para apanhar o comboio Southern para Londres. Era um dia importante e eu estava com os nervos em franja. No prévio dia já havia repetido uma jornada parecida (fora até Clapham Junction para me encontrar com Monsieur Pascale, um contacto gentilmente cedido por um amigo francês da minha mãe e que possuía um finório restaurante estilo Ratatui em Clapham. O Monsiour Pascale precisava de uma empregada-de-mesa e oferecera-me a oportunidade de realizar um teste para ver o meu trabalho. Eu precisava mesmo desse trabalho e as coisas tinham que correr bem, ou caso contrário, bye bye british dream). Como o teste acabaria a horas tardias e havia a ténue esperança de eu ficar com o trabalho, não me podia dar ao luxo de ir todos os dias de Gatwick para Clapham Junction (uma viagem que ronda aproximadamente as 12 libras diárias) e precisava de pernoitar em Londres, motivo pelo qual me servi da minha mastodonte lista de contactos e contactei uma prima afastada que me deu guarida na sua residência em Canning Town (o que implicava que eu teria de ir primeiro à casa dela para me ambientar com o local, dado que teria que ir para lá depois do trabalho).

Bom, possivelmente vocês não estão familiarizados com a rota do Southern, mas a estação de Clapham Junction fica antes da estação de Victoria, o que implicava que eu iria dar uma volta astronómica para ir até Canning Town, no conhecido East End de Londres. Não havia problema! Eu tinha até às 18h, hora do teste. O que pesava mais era o facto de estar exausta pois no dia precedente, depois de me encontrar com o Monsieur Pascale fui passear a Londres e andei pela apinhada New Bond Street à procura de uma estátua em que o Churchill estava sentado ao lado do Franklin Roosevelt (o problema é que a minha caminhada foi em vão dado que a rua estava em obras e havia uma escavadora bem na frente da estátua!) e de ter andado por quase uma hora à chuva pelo Hyde Park para ver o Albert Memorial (estou a falar daquelas gotas grossas que nos atingem furiosamente e eu não tinha trazido a porcaria da Umbrela-ela-ela-ela). O cansaço era latente mas a vontade de conseguir aquele trabalho era mais forte.

Chegando à estação de Victoria, onde é praticamente difícil dar mais de cinco passos sem chocar em alguém, pus-me no metro, Distric Line até Westminster, onde troquei para a Jubilee Line até Canning Town. Uma viagem atribulada, como não podia deixar de ser na serpente subterrânea na grande babilónia britânica. Após a visita relâmpago à minha prima afastada, para conhecer os seus filhos, o caminho que teria que fazer e as amenidades nas redondezas, foi a vez de fazer a viagem inversa. O tempo começava a urgir e eu pretendia chegar relativamente cedo ao restaurante para trocar de roupa e causar uma boa impressão com a típica pontualidade britânica (apesar do restaurante ser francês). O único problema é que só existe um metro que vai para Clapham Junction, o London Overground, que além de passar só de meia em meia hora, fica demasiado longe para o apanhar, por isso as minhas opções eram reduzidas, provavelmente teria que retornar a Victoria e apanhar o Southern. Matutando no metro, àquela hora apinhado de entusiastas aficionados por futebol, resolvi trocar em alguma estação pela Victoria Line e descer em Vauxhall para me aventurar à superfície num autocarro de dois andares, um dos ex-líbris de Londres.

Após consultar os mapas na estação (a minha estadia em Londres deixou-me com um doutoramento em leitura de mapas), concentrei-me em todos os autocarros que anunciavam o destino em Clapham Junction, na esperança que esse parasse em frente da estação, pois só assim me poderia orientar, afinal, ainda tinha na memória o percurso feito no dia anterior. Apanhei o autocarro e fiquei no primeiro andar, observando aquelas ruas que não figuram nos cartões postais da cidade. Guiava-me pelas indicações que o CD do autocarro anunciava, indicando a próxima estação e o destino final (e já entendo porquê que os motoristas de autocarros são tão mal-humorados. Deve ser decadente ouvir uma voz repetitiva e monocórdica o dia inteiro. Há gente que já matou por menos!). Quando o autocarro se aproximou de Clapham Junction o pânico tomou-me de assalto! Eu não conhecia aquele lado da cidade, já estava cada vez mais perto das 18h e eu não sabia o que fazer. Decidi esperar para ver qual seria a próxima paragem, o problema é que o autocarro se afastava de Clapham e a voz monocórdica avisava que nos aproximávamos de outra zona, eu tinha que sair ou ia parar a uma parte de Londres que provavelmente nem aparece nos mapas que dão aos turistas. Assim o fiz… I was fucked up! O meu pânico atingira o auge e faltava meia-hora… num acto de cobardia liguei à minha mãe e desfiz-me em pranto… “Mãe, estou perdida em Londres!”, acho que nenhuma mãe quer ouvir um filho dizer isso. Depois da minha mãe me acalmar, o talento nato de todas as matronas, aquietei e decidi pedir ajuda à primeira pessoa que encontrei… felizmente a mulher ia para o mesmo lugar que eu e só me restava colar-me a ela. Esperamos pelo autocarro, que chegou 15 minutos depois, e eu decidi ligar ao Monsieur Pascale para avisá-lo que iria chegar atrasado… um erro crasso para alguém que quer causar uma boa impressão ao patrão. No autocarro, decidi pedir ajuda ao motorista, apesar de muitos deles não primarem pela simpatia (mas talvez este tivesse um pouco de humanidade e me tomasse por uma turista perdida) e o senhor, apreciador da música promíscua de Notorious BIG mostrou-se prestável e indicou-me a paragem em que devia de sair.

Ao chegar ao destino, sai juntamente com a senhora que, provavelmente, estava atrasada para apanhar algum comboio, pois começou a andar apressadamente ao mesmo tempo que falava comigo por cima do ombro: «Sou da Geórgia (o país do Estaline) e tu és de onde?... Queres ir mesmo para a estação de Clapham Junction?». Mas acho que deve ter sido uma pergunta retórica pois ela não ficou para ouvir a minha resposta, acabando por se perder na infindável multidão. De facto eu já estava na estação de Clapham Juntion, mas aquela não era a rua que eu vira no dia anterior… faltavam cinco minutos… estava na hora de uma atitude drástica: apanhar um táxi!

Para piorar ainda mais, o motorista era um daqueles velhinhos que não devem saber o que é uma reforma. Após ter gritado umas cinco vezes o destino que pretendia, ele dirigiu o seu dedo trémulo (aposto que ele tinha Parkinson) até ao GPS (que destacava naquele carro que presumivelmente deve ter assistido à II Guerra Mundial) para escrever o destino, não sem antes reclamar: «Eu não sei onde fica essa rua», «Fica aqui perto, você vai pela Grant Road…», «Grant Road?! Grant Road é já ao virar da esquina! Eu estou aqui há mais de quinze minutos!». Se eu não tivesse com tanta pressa teria matado com requintes de crueldade! Que otário se mete a reclamar em vez de fazer dinheiro?! Normalmente os taxistas não são tubarões sedentos de dinheiro que adoram enganar os passageiros, fazendo sempre o caminho mais longo? Eu não me importo que ele me leve o dinheiro, só quero chegar à merda da rua! «Chatfield Road!», gritei eu. «Podes soletrar?», pediu ele. «C-h-a-t… não é Chapfield, é Chatfield!!!», berrei, inclinando-me sobre o vidro que separava os bancos traseiros dos dianteiros (chique, né?) e onde encontrei um cão quase tão velho como o dono deitado do lado do taxista (boa, onde é que vim amarrar o meu burro). Após o homem ter colocado a direcção no GPS (o que deve ter demorado uns belos 5 minutos), ele decidiu arrancar o táxi (Oh happy day!).

A viagem foi rápida, apenas para poupar tempo e não justificou a elevada quantia (afinal eu estava do lado oposto à rua que conhecia e era só atravessar um túnel ao qual eu não prestara atenção devido aos nervos). Paguei ao taxista, que além do mais deve ser bipolar, pois no fim até me tratou com amabilidade e corri para o restaurante, entrando de rompante e sendo recebida por um esguio jovem francês. Apresentei-me, troquei de roupa e benzi-me. Ao início tudo parecia extremamente compensador para a aventura que acabara de viver: os colegas eram simpáticos, o restaurante acolhedor, e o Pierre andava a tentar flertar comigo (um rapaz algo bem parecido, mas eu não consigo levar os homens franceses a sério… personal reasons), mas a meio da noite as coisas começaram a descambar. A colega australiana que me andava a dar as dicas e que expressamente me disse «não tires pedidos aos clientes», andou a debitar na sua voz desprovida de emoção as regras do restaurante. O restaurante era cheio de frescuras, afinal é francês e os clientes estão cheios de dinheiro, a comida não me parecia muito apelativa (sinceramente, será que os franceses não passavam fome depois de comer um “foigrá” ou um bife “tartará”?). Final da noite, faminta pois ainda não comera nada e com a moral em baixo, o dono do restaurante chamou-me e deu-me a sua opinião… não era o tipo de pessoa que procurava… se ao menos a australiana me tivesse ajudado como deve ser! Tanto esforço em vão… e lá se ia o meu possible affair avec Pierre.

Com fome, a altas horas da noite e capaz de me tornar num daqueles psicopatas que aparecem nos seriados americanos, acabei por desabafar a minha angústia com a minha mãe. Não sabia o que fazer… podia voltar para Crawley nessa mesma noite, mas já prometera ficar em Canning Town, e não parecia de bom-tom recusar… um fim-de-semana em Londres não era mau de todo e também estava na hora de dar um desconto a quem me acolhera em Crawley. Eu teria curtido o fim-de-semana, se os meus dias em Inglaterra não estivessem contados… pelo menos na viagem de volta apanhei os transportes certos…

Foto da estátua de Roosevelt e Churchill, tirada por alguém que teve mais sorte que eu.



sexta-feira, 16 de abril de 2010

Ode ao sistema de saúde americano


Obs: Tinha este texto na gaveta desde 22 de Março mas só agora pude postá-lo.

Assistindo às notícias na RTP Internacional, recebi esta boa nova com profunda alegria. Depois de 100 anos de luta os EUA finalmente vão ter um sistema de saúde nacional. Um salve ao Barak! Verdade seja dita que já estava na hora de ele fazer alguma coisa, pelo menos para justificar o duvidoso Nobel da Paz que recebeu. Ao ver esta notícia, rapidamente lembrei-me do gorducho bonacheirão cujo sentido de humor e os documentários já o colocaram num lugar muito especial no meu Hall of Fame: Michael Moore. Já assisti a todos os documentários dele, mas devo dizer que, de todos, o mais revoltante é sem dúvida “SiCKO”. Por mais vezes que o assista, sempre choro nos momentos estratégicos: o caso da mãe que viu a filha morrer-lhe nos braços porque o seguro de saúde não lhe cobria as despesas; de uma esposa que viu o marido definhar até à morte com cancro nos rins; de um velhote de 80 anos que, em vez de estar a apreciar a sua reformar, era obrigado a trabalhar para pagar os medicamentos; de pessoas a serem atiradas na rua como sacos de lixo porque não podem pagar a conta do hospital.

As grandes seguradas, as empresas farmacêuticas e uma data de políticos corruptos foram condescendentes com este sistema podre que nega um bem essencial à sua população, tudo em prol do lucro, um lucro obsceno, neste caso.

Se fazer lucros é só o que interessa para estas grandes empresas onde o conceito de “sufeciente” não existe, porque que o McDonald’s, por exemplo, em vez de vender comida geneticamente modificada, não vende cocaína? Ou porquê que o Starbucks não junta bolinhos de haxixe ao seu Caffe Mocca (talvez a sensação seguinte faça jus ao nome do café)… pensem bem: um Cheeseburger custa 1 euro, um saquinho de cocaína deve custar uns 10 euros… já viram o lucro que isso seria? Já consigo imaginar as pessoas a gritarem na Bolsa de Valores, a Dow Jones pode atingir o seu máximo… é só lucro!!!

Felicito os americanos pela sua conquista, e também o Sr. Obama, que talvez ainda venha a fazer grandes coisas pela América, como fizeram Abraham Lincoln e Franky Roosevelt. É um novo dia para a América e, como disse o Mikey no “The Big One”: «um império do mal (nazismo) caiu, o outro (capitalismo) também há-de cair».

Obs: Junto ao texto juntei um vídeo-chave do documentário SiCKO em que se faz uma comparação com o NHS (sistema de saúde britânico). God save the NHS!

Ps: Estive um tempo afastada porque as pestinhas de quem ando a tomar conta no Sheraton têm-me desgastado (mas ainda assim eu continuou a adorar crianças) e porque o meu complexo de Greta Garbo atingiu o auge, mas as coisas tem andando a compor-se e pouco a pouco ando a deixar o eremitismo de lado. Ando a reunir umas coisas fixes da minha estadia no Reino Unido para partilhar com os meus fiéis leitores.


Ps1: E nada melhor que comemorar a nova conquista com a boa música americana. Um bom hit para se ouvir numa pick-up chevrolet enquanto se percorre a América de uma ponta à outra (mais uma das dez coisas para se fazer antes de morrer. [Já tirei dessa lista o descobrir porquê que a Hannah Montana vende Cd's. Não se pode exigir muito de jovens que consideram Tokio Hotel música e acham que o Zac Effron é bonito. For heaven sake, não há nada de bonito nele!])

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Starting Point


And so she came back. Pois é, acabei de chegar (o que já deve dar para ver pelos acentos ortográficos), cansada da longa travessia que fiz com 40kg atrás e com os arrotos dos meus companheiros de autocarro ainda a ressoar nos ouvidos (arrotar o alfabeto não é uma proeza, guys, é nojento!). Sair de Inglaterra foi a coisa mais difícil que fiz nos últimos tempos (mais difícil do que dar 8 libras para ver o Remember Me. O Robert estava hot, como sempre, mas o filme ficou um pouco aquém das minhas expectativas). Sabem quando tem a sensação de que pertencem a um sítio, de que estão no vosso habitat natural? Eu senti-me assim. Adorei cada momento em Inglaterra, apesar das coisas não terem corrido pelo melhor. O Tavares (o baixasta da Fresno, não o meu gato, que Deus o guarde), certa vez, disse que a sua mãe lhe costumava dizer «as coisas não correm mal por acaso», e eu vou tentar tirar algum consolo destas palavras. Não vou desistir, até porque voltar para Inglaterra e triunfar já se tornou uma questão de honra, especialmente porque já tenho 21 anos e o tempo parece avançar matreiramente como uma raposa. Quer dizer, aos 21 anos a Victoria já respondia pelo título de "Sua Majestade" e já tinha dado início ao seu espírito procriador (ela teve 9 filhos em 19 anos de casamento. Outch!); a Agatha Christie provavelmente estaria enamorada do Coronel Archibald; Charlie Chaplin dava os primeiros passos na sua brilhante carreira cinematográfica e Greta Garbo, bem, ela estava a fazer as duas coisas que sabia fazer melhor: ser melancólica e terrivelmente bonita. E eu, aos 21 anos, aqui estou, com os sonhos pendurados no cabide e vendo as coisas desenrolarem-se à velocidade do nosso prezado Sistema de Saúde. É chato, pensar que as coisas vão voltar a ser mundanamente rotineiras como sempre eram quando estavam aqui e que as perspectivas que se poderiam abrir para mim terão de continuar dentro da gaveta até nova ordem. Pelo menos, a parte positiva é que no voo de retorno vim a conversar com uma familia inglesa que me explicou como é dificil a situação para aqueles que acabam de chegar à Inglaterra. É preciso paciência, disse a senhora Sarah. Paciência eu tenho para doar e vender, dinheiro é que não. Dinheiro, dinheiro, dinheiro! Os tempos que passei sentada nos bancos de jardim a ver os esquilinhos correr, nunca odiei tanto algo como essa coisa. Já chegaram ao ponto de parar para pensar nas coisas e ver que, no fundo, o mundo é incrivelmente estúpido? Digo, pensar que a nossa vida, a nossa existência, a nossa felicidade, tudo depende de um pedaço de papel!!



Bom, amanhã começo a trabalhar num part-time para repor o dinheiro perdido, afinal, Roma não se fez da noite para o dia e good things come to those who wait. Se assim for ainda devo de ter alguma epifânia.


Ps: Agradeço a todos os amigos o apoio e desculpem a frieza no retrocesso. Simplesmente ainda estou a tentar lidar com várias coisas ao mesmo tempo e receio de momento não ser a melhor das companhias.

Ps1: Até ao final da semana ponho as leituras em dia.

Ps2: Fiquem ao som de Cartola. Aí está um tipo de quem senti mesmo muita falta.

terça-feira, 30 de março de 2010

Things are falling apart

O que fazer quando as coisas nao correm como planeamos e parece que alguem foi ao Professor Bambu para fazer um servicinho de macumba para que tudo nos corra mal? Em apenas uma semana o meu Britsh Dream transformou-se num Nightmare e dia 5 de Abril estarei retornando a Portugal com a moral quase tao embaixo como as tropas de Napoleao quando nao conseguiram invadir a Russia. Dispenso perguntas sobre o que se passou pois nao pretendo dizer a ninguem, what happens in England, stays in England. Claro que nem tudo esta perdido... nem mesmo quando a Pandora abriu a famosa caixa as coisas ficaram perdidas, pois juntamente com todos os males do mundo, que sairam de dentro da Caixa de Pandora, tambem saiu uma luzinha muito pequena chamada "esperanca" e eu pretendo voltar a Inglaterra em finais do ano, desta vez com as coisas melhor orientadas. So' me resta dizer que adorei este pais, e quando digo este pais digo o pais todo, dado que andei por Lincolshire, Sussex, e mais um ou outro condado que agora nao me recordo. Conheci muito boa gente e tambem pessoas que se o Hitler tivesse mandado para a camara de gas eu nao ia sentir pena nenhuma. Honestamente devo dizer que nao gosto de Londres... e' uma cidade fixe (= legal) para se passear e bastante enriquecedora a nivel cultural, mas se vivesse nela teria que andar constantemente sobre o efeito de Prozac pois o stress, as pessoas sempre a empurrarem-se umas as outras, os seus olhares vazios dentro do metro, simplesmente decadente... prefiro Crawley, onde presentemente estou... Volto para Portugal, mas regressarei em breve, e preparem-se, porque nesse data, as coisas vao ser diferentes para o Reino Unido.

sábado, 20 de março de 2010

Let's talk about politics, baby

O que vou escrever em seguida provavelmente ira desafiar algo em que muitos de vos acreditam, em especial no que concerne a regimes politicos, mas diga-se de passagem que eu nunca me considerei totalmente de esquerda, conquanto frequente enventos organizados pelo Partido Comunista Portugues, prefiro pensar em mim como uma "free thinker" - venero Marx mas discorod com a sua ditadura do proletariado, preferindo a vertente mais democratica de Bernstein e da social-democracia. Anyways, hoje vou falar de regimes politicos e dizer que o meu apreco pela monarquia tem aumentado (talvez porque presentemente esteja a viver numa). Passo a explanar a minha ideia de seguida.

Existem varios tipos de regimes: ditaduras militares, regimes presidencialistas, monarquias absolutas, etc., no entanto, so' falarei de quatro: presidencialismo, semipresidencialismo, parlamentarismo e monarquia constitucional.

No regime presidencialista, exemplo: Brasil ou EUA, o presidente e' o chefe de governo e de estado, isto e', o poder legislativo nao esta' desligado do executivo. Uma coisa ja' reparei nestes dois paises e' que o presidente parece passar mais tempo fora do que dentro do seu pais. Veja-se o caso do Lula, que parece estar envolvido em quato todos os encontros internacionais e quase tempo nenhum passa no Brasil. A sensacao que tiro desses dois paises e' que, alem de ambos terem proporcoes continentais e serem federacoes, o que os torna mais dificeis de governar, o seu dirigente parece estar mais envolvido em cimeiras disto, congressos daquilo, o que me leva a pensar: "mas afinal quem e' que governa este pais quando ele esta' fora?"

Segue-se o regime semipresidencialista, tomando como exemplo a Franca. Neste regime ha uma dualidade executiva entre o presidente e o primeiro-ministro, ficando o primeiro encarregue da politica externa e o segundo da interna. E' algo acertivo e acabamos por ter a ideia de que o presidente faz mesmo algo. Ligando a televisao vemos o Sarkozy a falar da politica externa francesa, e tambem da interna, sentimos que ele parece fazer algo. So' lamento que o primeiro-ministro nao seja tao mencionado, quer dizer, quantas vezes ouvimos falar do PM frances? Honestamente eu nem sei quem ele e'.

Depois ha o parlamentarismo, tomando o caso portugues. Neste regime, o poder executivo depende do apoio directo do parlamento, nao havendo separacao nitida entre o executivo e o legislativo. Lembro-me durante um almoco ao som das noticias sobre o primeiro-ministro portugues, o Jean perguntar: "so falam no PM, afinal para que serve o presidente?". Concordo. Ultimamente ouvimos falar tanto do Jose Socrates que perguntamos: afinal o que faz sua excelencia Anibal Cavaco Silva? Bom, num regime parlamentar, o presidente pode ficar encarregue das forcas armadas (alguem viu o Cavaco fazer isso?), das questoes diplomaticas (mas parece que o Socrates e' que faz tudo, ainda que mal e porcamente) ou pode disolver o parlamento, como o Jorge Sampaio muito bem fez com Santana Lopes. Nao, agora a serio. O que e' que o Cavaco Silva faz da vida a nao ser andar por ai a distribuir mencoes honrosas e a visitar comunidades portuguesas na Espanha, em Andorra ou sei la' mais aonde? Tenho uma novidade para ti, Cavaco, qualquer menina dos escuteiros pode distrubir medalhas. Justifica-se pagar um salario exorbitante para um tipo andar a fazer so isso e sem fazer nada contra um paspalho que, com as suas medidas politicas, so torna a situacao do pais ainda mais caotica? Senhor Cavaco Silva, arranje um trabalho a serio (e ja' agora, ponha botox nos labios e pare de falar como se estivesse aflito para ir a casa-de-banho). Com um regime assim, Portugal parece voltar aos tempos salazaristas em que presidente nao passava de um mero corta-fitas manipulado pelo PM. Nao seria mais proveitoso ter uma monarquia?

Coloquemos de lado a ideia do Rei Sol, do Antigo Regime, falo de uma monarquia constitucional como o caso ingles. Pensem bem, o presidente tem um salario vitalicio, afinal, ja' ocupou o cargo mais alto do pais... esse presidente, mesmo fora de cargo, presida de secretaria, motorista, guarda-costa e por ai a fora, fora o salario. Isto e', alem do Cavaco silva, tambem pagamos estes luxos a Ramalho Eanes, Mario Soares e Jorge Sampaio (sim, provavelmente o Mario Soares vai bronzear as suas bochechas de buldogue para Portimao com o vosso dinheiro)! Se, neste cenario, o presidente nao faz nada e ele muda sempre que o seu mandato termina, nao seria mais proveitoso para os cofres do estado ter um rei... o dirigente muda sempre que o monarca morre, e' certo que a monarquia e' heriditaria e nao electiva, mas de que adianta eleger um presidente se ele pouco ou nada faz? O rei mantem-se no poder ate 'a sua morte e os seus "criados" mantem-se com ele. Tendo como exemplo a Inglaterra, vemos a Rainha envolvida em iniciativas do povo, vemo-la visitar empresas empreedoras, vemos o principe William ligado 'as obras de apoio social e vemos o PM envolvido na politica externa e na interna. De facto, vemos algo a ser feito! O principe William, por exemplo, fez servico militar. Sera que o filho de algum presidente o fez? Nao creio que algum deles estaria interessado em mandar o seu filho para a guerra. Sei, contudo, que muitos elementos das familias reais europeias combateram nas Grandes Guerras Mundiais, onde acabaram por perder a vida (esse e' o verdadeiro patriotismo, o governante deve dar o exemplo e morrer pela sua patria, caso necessario... nao limitar-se a mandar os outros para a morte, como se fossem meros peoes num tabuleiro de xadrez). Ok, a familia real britanica tem os seus escandalos, como qualquer familia normal (a rainha Victoria, por exemplo, declarou a homossexualidade como um crime, o que condenou o escritor Oscar Wilde a dois anos de trabalho forcado. Por ironia do destino, o seu neto Victor Edward envolveu-se num escandalo gay num bordel masculino). Com isto tudo, penso, se o chefe de estao pouco ou nada faz, talvez seja melhor optar por um nao tao dispendioso. So' lamento que o herdeiro ao trono portugues seja D. Duarte Pio, descendente de D. Miguel, O Absolutista (mas claro que voces sabem isso, se estivam atentos nas aulas de historia) e nao um descendente da casa dos Saxe-Coburg & Gotha, que terminou, em Portugal, com D. Manuel II (que nao teve descendencia). Para quem nao sabe, os Saxe-Coburg & Gotha foram uma das mais influentes casas reais no seculo XIX. Dela sairam a mae da rainha Victoria; Albert, principe consorte, marido de Victoria; Leopold I, da Belgica e a sua descendencia ainda no poder; e D. Fernando, casado com D. Maria II e responsavel pela construccao do Palacio da Pena). A minha visao sobre os ultimos anos da monarquia portuguesa e' que, D. Carlos era algo permissivo e nao fazia grande coisa, talvez merecesse o regicidio, mas creio que o julgam mal pelo mapa cor-de-rosa. Portugal tinha, obrigatoriamente, que ceder ao Ultimato Ingles. Como poderia Portugal, um pequeno imperio que acabara de perder o Brasil, enfrentar o Imperio Britanico? Acho que D. Carlos ate poupou inumeras vidas, pois caso houvesse uma guerra, muitas seriam ceifadas.

Desculpem a seca, mas pegando em politica e historia e poderia passar aqui o dia todo!