quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Racismo é burrice!


Já dizia Gabriel, o génio pensador, «racismo é burrice». A eleição de Dilma Rousseff desencadeou uma enxurrada de comentários preconceitosos de cidadãos do sul/sudeste que culpabilizaram os brasileiros do norte/nordeste pela vitória da petista (no entanto, mesmo sem os Estados do Norte/Nordeste, a vitória de Dilma estaria mais que garantida). Aparentemente todo este alarido começou com um comentário no Twitter de Mayara Petruso, uma paulista estudante de Direito, que postou o seguinte: «Nordestino não é gente. Faça um favor a São Paulo, mate um nordestino afogado» e foi seguida fielmente por outros milhares de diversificados comentários que colocam à tona o já conhecido preconceito contra os nordestinos e deixam indignado quem quer que tenha estomâgo para ler os tweets escritos, exemplos perfeitos da magnitude que a ignorância pode alcançar. Eu acho que este assunto não deve ser deixado de lado e deve ser trabalhado, e é a razão pela qual, escrevo agora este texto, colocando de lado ideologias políticas (sendo eu uma apoiante da esquerda [embora tivesse preferido ver a Marina no poder]) e falando como a patriota que sou e emocionando-me de cada vez que oiço a brilhante composição de «Aquarela do Brasil», de Ary Barroso.

Ontem recebi um email da autoria de José Barbosa Júnior (que desconheço quem seja mas que gostaria de parebenizar) que dizia o seguinte (e citarei somente excertos significativos):

"(...) fiquei a pensar nas verdades ditas por esses jovens, tão emocionados em sua declaração contra os nordestinos . Eles tem razão! Os nordestinos devem ficar quietos. Cale a boca, povo do Nordeste. Que coisas boas vocês têm para oferecer ao resto do país? Ou vocês pensam que são os bons só porque deram à literatura brasileira nomes como o do alagoano Graciliano Ramos, dos paraibanos José Lins do Rego e Ariano Suassuna, dos pernambucanos João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira, ou então o cearense José de Alencar e a maravilhosa Rachel de Queiroz? Só porque o Maranhão nos deu Gonçalves Dias, Aluisio Azevedo, Arthur Azevedo, Ferreira Gullar, José Louzeiro e Josué Montello (...) e a Bahia, em seus encantos, nos deu como herança Jorge Amado, vocês pensam que podem tudo (acrescentaria o pernambucano Paulo Freire, pedagogo e filósofo e pedra basilar do meu curso universitário)? Isso sem falar no humor brasileiro, de quem sugamos de vocês os talentos do genial Chico Anysio, do eterno trapalhão Renato Aragão, de Tom Cavalcante e até mesmo do palhaço Tiririca, que foi eleito deputado federal mais votado pelos (pasmem) paulistas! E já que está na moda o cinema brasileiro, poderia falar ainda de atores como o cearense José Wilker, Luiza Tomé, Milton Moraes e Emiliano Queiróz, o inesquecível Dirceu Borboleta (...) e ainda os bahianos Lázaro Ramos e Wagner Moura, que será eternizado pelo "carioca" Capitão Nascimento de Tropa de Elite. Música? Não, vocês não poderiam ter coisa boa a nos oferecer, povo analfabeto e sem cultura... ou pensam que teremos que aceitar vocês pela simplicidade e majestade de Luiz Gonzaga, o rei do baião? Ou das lindas canções de Nando Cordel e dos seus conterrâneos pernambucanos Alceu Valença, Dominguinhos, Geraldo Azevedo e Lenine (eu acrescentaria Raul Seixas, o pai do Rock Nacional!)
(...) Ah, Nordestinos, além de tudo isso vocês ainda resistiram à escravatura? E foi daí que nasceu o mais famoso quilombo, símbolo da resistência dos negros à força opressora do branco que sabe o que é melhor para o nosso país? (...) Um conselho, pobres nordestinos. Vocês deveriam aprender connosco, povo civilizado do sul e do sudeste do Brasil. Nós sim temos coisas boas a lhes ensinar. Por que não aprendem conosco os batidões do «funk carioca»? Deveriam aprender e ver as suas meninas dançarem até ao chão enquanto são carinhosamente chamadas de "cachorras. Além disso, deveriam aprender também muito da estética musical de Tati Quebra-Barraco, Latino e Kelly Key. Sim, porque melhor que a asa branca bater asas e voar, é ter festa no apê e rolar bundalelê! (...) Ah! E sem falar numa coisa que vocês tem que aprender conosco, povo civilizado, branco e intelectualizado: explorar bem o trabalho infantil! Vocês não sabem, mas na verdade não está em jogo se é ou não trabalho infantil (isso pouco vale pra justiça), o que importa é o quanto esse trabalho infantil vai render. Ou vocês não perceberam ainda que suas crianças não podem trabalhar nas plantações, nas roças, etc. não porque isso as afasta da escola e é um trabalho horroroso e sujo, mas na verdade é porque ganha pouco. Bom mesmo é a menina deixar de estudar pra ser modelo e sustentar os pais, ser atriz mirim ou cantora e ter toda a sua vida totalmente modificada, mesmo que não tenha estrutura psicológica pra isso... mas o que importa é que vão encher o bolso e nunca precisarão do Bolsa-Família, daí é facil criticar quem precisa!

Minha mensagem é a seguinte: Calem a boca, nordestinos! Calem a boca, porque vocês não precisam de se rebaixar e tentar responder a tantos absurdos de gente que não entende o que é, mesmo sendo abandonado por tantos anos pelo próprio país, vocês tiraram tanta beleza e poesia das mãos calejadas e das peles ressecadas de sol a sol. Calem a boca e deixem quem não tem nada que dizer jogar suas cartas ao vento. Não deixem que isso os tire de sua posição majestosa na construção desse povo maravilhoso de tantas cores, sotaques, relegiões e gentes. Calem a boca porque a história desse país responderá por si mesma a importância e a contribuição que vocês nos legaram, seja na literatura, música, nas artes cênicas ou em quaisquer situações em que a força do seu povo falou mais alto (...). Que o Deus de todos os povos, as raças, tribos e nações os abençoe, queridos irmãos nordestinos!».

São sem dúvida belas palavras que deviam servir para calar a boca de ignorantes que, alienados por uma media que mostra um Brasil que se resume aos estúdios da Globo e ao eixo São Paulo-Rio de Janeiro, só sabem defecar pela boca uma torrente de ideias pré-concebidas e sem qualquer tipo de fundamento. Aliás, passando uma vista de olhos pelos tweets coletados pelo site «Diga Não à Xenofobia» dá claramente para traçar o perfil dos seus autores, jovens de classe média alta, fiéis consumidores de Malhação que que consideram Cine e Restart como uma das oitavas maravilhas do mundo. Enfim!

O Brasil é um mundo! À semelhança dos Estados Unidos, temos proporções continentais e englobamos uma diversidade cultural estontenante. É díficil tentar ver semelhanças entre Nova Iorque e o Texas, ou a Florida e a Califórnia e o Michigan ou o Alaska, o mesmo é válido para o Brasil. O Sul parece uma amostra de uma Alemanha perdida no tempo, totalmente divergente do cenário nordestino ou mesmo do Norte. O importante é o que cada um desses estados que englobam a nossa Pátria Amada contribuiu para a sua história. O Sul nos deu João Goulart, Luís Carlos Prestes e até mesmo Getúlio Vargas, na música nos presentou com as belíssimas Elis Regina e Adriana Calcanhoto e na dramaturgia nacional com Glória Menezes, entre outras figuras. Do sudeste vieram os meus ídolos Amácio Mazzaropi (considerado o Charlie Chaplin brasileiro), Adoniran Barbosa, Cartola, Noel Rosa, Tom Jobim, Chico Buarque, Heitor Villa-Lobos, Chiquinha Gonzaga e Vinicius de Moraes, sem contar com importantes figuras da história nacional como Juscelino Kubitchek e Alberto Santos Dumont e os aclamados modernistas Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Anita Malfatti e Tarsilla do Amaral, que deram à corrente artística moderna um rosto tropical brasileiro. Na região Centro-Oeste falemos de Jânio Quadros, Wolf Maya ou Patrícia Pilar. Do nordeste veio Deodoro da Fonseca, proclamador da República e primeiro presidente brasileiro, Assis Chateubriand, e grandes músicos como Simone, Gal Costa e os meus muito queridos Gilberto Gil e Djavan. E a região Norte, muitas vezes também esquecida e sarcasticamente tratada como a terra dos índios (como se ser índio ou descendente fosse um facto vergonhoso, quando na verdade são os indigenas aqueles que mais direito têm a este solo, pois são eles os habitantes naturais e senhores por direito desta terra à qual chamamos Brasil) de onde provêm Inglês de Sousa e José Veríssimo, fundadores da Academia Brasileira de Letras, Samuel Benchimol e Fafá de Bélem. Entre outros, cada região contribuiu um pouco para esse mosaico cultural que é o Brasil. E ao invés de ficarmos procurando o que nos torna diferentes, seja porque os do sul tem o olho mais claro porque são descendentes de alemães ou italianos e dos norte e nordeste são índios ou negros, seja porque no sul o clima é mais propício à agricultura do que no nordeste, seja porque motivo for, deviamos de estar mais preocupados com aquilo que nos torna iguais e nos faz ser tão bem agraciados mundo afora. Perguntando a muita gente como definiria um brasileiro, talvez dissessem: «são um povo alegre, optimista apesar das contrariedades e com uma grande criatividade», provavelmente não estariam focalizados em dizer «espere, os do sul/sudeste são assim ... e os do norte/nordeste são assim ...». Se conseguirmos deixar de lado esses preconceitos idiotas e sem noção, poderemos trabalhar em conjunto para uma coisa que todos almejamos: um bom nível de vida e o desenvolvimento do nosso país, e isso só será possível se todo o Brasil trabalhar em conjunto, não se toda a atenção se centralizar somente na região sul e sudeste. É verdade comprovada que o Brasil está mudando, está aparecendo na media internacional pelas razões certas que não sejam os bandidos que entraram no hotel e mataram um monte de gringos, a mãe que trocou o filho por uma saca de arroz ou outras notícias... o Brasil de hoje, certamente não é o mesmo que a minha mãe deixou há 20 anos atrás, é um Brasil para o qual eu me sinto motivada a voltar. É um Brasil que deve aprender a usar de forma inteligente uma das maiores riquezas que tem: o seu povo!

E finalizo este texto com uma lágrima no canto do olho (que patriota idiota!), simplesmente acredito no meu país e dizem que o sonho comanda a vida e convido-vos a ouvir a música «Norte e Nordeste» do rapper cearense Rapadura, meu amigo e "irmão" e que eu vejo orgulhosamente brilhar no cenário musical nacional.

3 comentários:

nay disse...

antes de tudo né Cá, somos humanos... e vivemos no mesmo mundo.. fronteiras abstratas e físicas nada são diante do fato maior: somos humanos. É isso que a maior parte das pessoas não entendem, que parte da "sujeira" do mundo está ali, por uma omissão, conformidade, não reação nossa... Mas ainda acredito no ser humano.. utopia? pode ser.. mas para mim, andorinha faz verão sim!
assinado: uma mameluca com muito orgulho!

Daniel disse...

Idiota essa gente que quer por culpa da derrota de um candidato em cima de gente que, se formos analisar, boa parte da população nacional tem sangue nordestino. Bjus.

http://submundosemmim.blogspot.com

Leticia disse...

É realmente uma vergonha ao país termos essas pessoas como brasileiros.Sou filha de nordestino com muito orgulho e não vejo nada em que eu seja melhor por ter nascido no Sudeste.

Os exemplos citados falam por si.
O triste é o preconceito dentro de casa.

Bjks menina.