Tenho sido extremamente negligente com o meu blog nos últimos tempos. Talvez porque tenha querido seguir o conselho da minha sempre muito preocupada mãe, a qual tem andado algo concertada com a minha vida social ser muitas vezes posta em segundo plano junto desse vício chamado computador. Por isso mesmo tenho passado mais tempo em grandes farras, em conversas eloquentes e em episódios que para aqui não dizem respeito ao invés de me dedicar a escrever loquazes textos que ficam aquém dos ensaios de grandiosos escritores como Saramago (que já agora, Descanse em Paz).
Isto tudo para dizer que, nesta quinta-feira estarei regressando novamente a Inglaterra. Já vejo o deja vu a desenrolar-se na minha cabeça. Voltar a empacotar as coisas. Escolher a roupa para levar, os livros para ler, dizer adeus a toda a gente, rezar muito para que tudo corra bem desta vez e depois apanhar os meios de transporte que eu já muito bem conheço. Não sou tão religiosa como os Romanov mas que, desta vez, Deus me guie e me ajude. Pelo menos desta vez as coisas serão diferentes. Já tenho trabalho fixo e um lugar para ficar. Vou conhecer de perto a vida de uma família inglesa, vou ver como vive a classe alta (esse bicho em vias de extinção), vou estudar e já me programei para fazer voluntariado em comunidades carencidadas nos dias da minha folga. E já desenvolvi umas teorias para partilhar com as pessoas que fielmente me lêem.
Bom, muitos de vocês devem ter lido a minha odisseia por Clapham e como os acontecimentos dessa noite foram infrutíferos. O problema, é que as peripécias não se ficam por aí, e até eu encostar a minha cabeça numa almofada em Canning Town ainda se sucederam coisas que parecem saídas de uma comédia de baixo rendimento.
Depois de desligar o telefone, terminando assim a chorosa conversa com a minha mãe, encaminhei-me até à paragem de autocarro mais próxima por não me apetecer andar a horas tardias por aquelas ruas que lembravam os cenários dos assassinatos de Jack O Estripador. Felizmente tive sorte e encontrei uma paragem ali perto e só me restava aguardar junto dos outros passageiros, chorando em silêncio pela minha má sorte e sendo olhada com comiseração (de mochila às costas e cara que não denota minha verdadeira idade, provavelmente deviam tomar-me como alguma adolescente escorraçada de casa pelos pais).
Pouco tempo depois apareceu o N44 e subi para o seu primeiro andar, observando as luzes da invicta cidade reflectidas pelo Rio Tamisa e revivendo a minha vida em retrospectiva, trespassada por uma forte tristeza (só faltava a musiquinha estilo Edith Piaf e parecia que estava num filme francês). Cheguei à Estação de Victoria (o meu ponto de encontro em Londres) consultando compulsivamente o relógio, tinha os passos contados dado que o último metro era às cinco para a meia-noite e a última coisa que me faltava era ter que dormir na estação (o que, no fundo, talvez desse alguma veracidade à minha história de adolescente foragida). Felizmente tive sorte e fiz tranquilamente o percurso na Jubilee Line, àquela hora apinhada de gente que regressava ao conforto dos seus lares, fitando o vazio e rodeada de outros tantos protuberantes olhares vazios, protótipos da frieza citadina.
Cheguei a Canning Town uns dez minutos depois da meia-noite com o estômago a roncar qual desafinada orquestra. Poderia ir procurar algum local aberto para comer, mas já estava cansada e a verdade é que Canning Town não é dos locais mais apetecíveis para se passear à noite. Na verdade, enquanto apanhava mais um autocarro até à casa da minha prima (juro que já não podia com transportes públicos), observava aqueles edifícios degradados e as ruas sujas tão diferentes das do centro de Londres e pensava em como esta cidade poderia ser acabada de sair do romance de Charles Dickens “A Tale of Two Cities”. «Era o melhor dos tempos (para Westminster, Nothing Hill e tantas outras zonas posh de Londres), era o pior dos tempos (para Canning Town, Bow ou outra zona degradada da capital britânica)». Era como estar no Bronx, mas na Europa e a última coisa que me faltava acontecer naquele dia era ser vítima de algum gang.
Pela janela pude vislumbrar que a maior parte dos restaurantes (incluindo o McDonald’s) estavam fechados e só me restava ir para cama com fome e aguardar até o dia seguinte, numa atitude de auto-punição (até porque não sou do tipo de pessoa que assalta a cozinha dos outros). Apeei-me no meu destino e olhei à minha volta, tirando um pub de onde provinham as risadas alegres de quem já bebera em demasia, não se via vivalma. Foi então que ajustando os óculos à minha cara, vi aquele letreiro que, para mim, reluzia como um letreiro de Las Vegas, «The King of Town» penso ser o nome, com o logótipo de um sorridente frango (o que deve significar o quê, que o frango estava feliz antes de virar um hambúrguer?). Entrei no estabelecimento, aquela hora frequentado por noctívagos que me faziam lembrar personagens do teledrama britânico EastEnders, e pedi um menu cheeseburguer que me custou 2,50 libras. Vendo os clientes entrarem e saírem, muitos olhando-me com curiosidade, afinal, uma jovem nova por aquelas bandas, de mochila às costas devia de despertar curiosidade. Deliciando-me com o hambúrguer, que teve gosto a ouro para mim, senti a minha auto-estima regressar vagarosamente, ao mesmo tempo que o meu corpo absorvia as poucas proteínas naquela refeição. Senti-me como uma personagem de algum filme do James Dean ou do Marlon Brando em inicio de carreira… era como se estivesse no livro de Jack Kerouac e, por escassos momentos até apreciei como seria a vida de um hippie ou de um viajante de mala às costas, um nobre vagabundo… até ser trazida à realidade pelo indiano que administrava o King of Town, «We’re gonna close, mate».
Atravessei a estrada e caminhei pela rua da casa da minha prima afastada, a grande velocidade. Era pouco iluminada e a sensação de que a algum instante ia sair alguém da escuridão com uma faca em punho e dizer «Give me ya money, bitch», não me saía da cabeça. Lembrava-me do caminho que fizera de tarde e sabia que ela morava no número 28, mas a verdade é que à noite, a pouca iluminação e os meus óculos que já não servem muito para a minha miopia em ascensão, já não sabia bem qual era a porta dela… lembrava-me que era uma das primeiras por isso decidi bater à porta daquele que supôs ser o número 28. Uns dois minutos depois de ter batido à porta vigorosamente ouvi passos na escada e uma voz em reclamo… a porta abriu-se e um careca quarentão de ar ensonado espreitou pelo ferrolho. «WTF», pensei. Sabia que a minha prima tinha três filhos, mas não conhecia o marido dela, por isso podia bem ser aquele tipo.
«Yes», disse ele profundamente irritado. Tinha cara de quem tivera um sonho delicioso e que eu lhe interrompera esse prazer. «Uuh… Sandra!?», balbuciei eu, sentindo-me verdadeiramente idiota. «Aqui não vive nenhuma Sandra», disse ele. Foi como se me dessem um soco no estômago. «Sorry, sir, I made a mistake», disse eu ao mesmo tempo que ia recuando, receosa. E se o tipo me fosse bater com a vassoura, tomando por alguma sem-abrigo a importunar os cidadãos decentes. Comecei a correr, até encontrar o número 28. Afinal batera no número 32!
No dia seguinte, quando saí de manhã para dar um passeio pela City, encontrei o homem à porta de casa acendendo um cigarro na companhia do amigo (será que são parentes da Mafia, pensei, e me vão mandar desta para melhor). «How are ya?», perguntou ele mal me viu. Bolas, pensei, ele reconheceu-me e achei melhor pedir desculpas. «Foi a si que eu bati ontem à porta?» «Sim». «Desculpe, sir, mas era de noite e eu confundi as portas», e corei a olhos vistos. Em vez de reclamações, as gargalhadas irromperam como bombas, no fundo a situação era algo cómica. «That’s fine, mate», disse o homem ainda rindo. «Thank you sir, have a nice weekend», disse eu antes de me dirigir à paragem. Caminhando e ainda ouvindo os risos atrás de mim, pensei… um dia ainda vou ver a minha biografia virar filme e com a Emily Blunt a fazer de mim.
Rubrica trazendo algumas aventuras vividas no Reino Unido.
26 de Março. Sexta-feira. 14:30. Lá estava eu no Metrobus, autocarro de Crawley, a caminho do Aeroporto de Gatwick para apanhar o comboio Southern para Londres. Era um dia importante e eu estava com os nervos em franja. No prévio dia já havia repetido uma jornada parecida (fora até Clapham Junction para me encontrar com Monsieur Pascale, um contacto gentilmente cedido por um amigo francês da minha mãe e que possuía um finório restaurante estilo Ratatui em Clapham. O Monsiour Pascale precisava de uma empregada-de-mesa e oferecera-me a oportunidade de realizar um teste para ver o meu trabalho. Eu precisava mesmo desse trabalho e as coisas tinham que correr bem, ou caso contrário, bye bye british dream). Como o teste acabaria a horas tardias e havia a ténue esperança de eu ficar com o trabalho, não me podia dar ao luxo de ir todos os dias de Gatwick para Clapham Junction (uma viagem que ronda aproximadamente as 12 libras diárias) e precisava de pernoitar em Londres, motivo pelo qual me servi da minha mastodonte lista de contactos e contactei uma prima afastada que me deu guarida na sua residência em Canning Town (o que implicava que eu teria de ir primeiro à casa dela para me ambientar com o local, dado que teria que ir para lá depois do trabalho).
Bom, possivelmente vocês não estão familiarizados com a rota do Southern, mas a estação de Clapham Junction fica antes da estação de Victoria, o que implicava que eu iria dar uma volta astronómica para ir até Canning Town, no conhecido East End de Londres. Não havia problema! Eu tinha até às 18h, hora do teste. O que pesava mais era o facto de estar exausta pois no dia precedente, depois de me encontrar com o Monsieur Pascale fui passear a Londres e andei pela apinhada New Bond Street à procura de uma estátua em que o Churchill estava sentado ao lado do Franklin Roosevelt (o problema é que a minha caminhada foi em vão dado que a rua estava em obras e havia uma escavadora bem na frente da estátua!) e de ter andado por quase uma hora à chuva pelo Hyde Park para ver o Albert Memorial (estou a falar daquelas gotas grossas que nos atingem furiosamente e eu não tinha trazido a porcaria da Umbrela-ela-ela-ela). O cansaço era latente mas a vontade de conseguir aquele trabalho era mais forte.
Chegando à estação de Victoria, onde é praticamente difícil dar mais de cinco passos sem chocar em alguém, pus-me no metro, Distric Line até Westminster, onde troquei para a Jubilee Line até Canning Town. Uma viagem atribulada, como não podia deixar de ser na serpente subterrânea na grande babilónia britânica. Após a visita relâmpago à minha prima afastada, para conhecer os seus filhos, o caminho que teria que fazer e as amenidades nas redondezas, foi a vez de fazer a viagem inversa. O tempo começava a urgir e eu pretendia chegar relativamente cedo ao restaurante para trocar de roupa e causar uma boa impressão com a típica pontualidade britânica (apesar do restaurante ser francês). O único problema é que só existe um metro que vai para Clapham Junction, o London Overground, que além de passar só de meia em meia hora, fica demasiado longe para o apanhar, por isso as minhas opções eram reduzidas, provavelmente teria que retornar a Victoria e apanhar o Southern. Matutando no metro, àquela hora apinhado de entusiastas aficionados por futebol, resolvi trocar em alguma estação pela Victoria Line e descer em Vauxhall para me aventurar à superfície num autocarro de dois andares, um dos ex-líbris de Londres.
Após consultar os mapas na estação (a minha estadia em Londres deixou-me com um doutoramento em leitura de mapas), concentrei-me em todos os autocarros que anunciavam o destino em Clapham Junction, na esperança que esse parasse em frente da estação, pois só assim me poderia orientar, afinal, ainda tinha na memória o percurso feito no dia anterior. Apanhei o autocarro e fiquei no primeiro andar, observando aquelas ruas que não figuram nos cartões postais da cidade. Guiava-me pelas indicações que o CD do autocarro anunciava, indicando a próxima estação e o destino final (e já entendo porquê que os motoristas de autocarros são tão mal-humorados. Deve ser decadente ouvir uma voz repetitiva e monocórdica o dia inteiro. Há gente que já matou por menos!). Quando o autocarro se aproximou de Clapham Junction o pânico tomou-me de assalto! Eu não conhecia aquele lado da cidade, já estava cada vez mais perto das 18h e eu não sabia o que fazer. Decidi esperar para ver qual seria a próxima paragem, o problema é que o autocarro se afastava de Clapham e a voz monocórdica avisava que nos aproximávamos de outra zona, eu tinha que sair ou ia parar a uma parte de Londres que provavelmente nem aparece nos mapas que dão aos turistas. Assim o fiz… I was fucked up! O meu pânico atingira o auge e faltava meia-hora… num acto de cobardia liguei à minha mãe e desfiz-me em pranto… “Mãe, estou perdida em Londres!”, acho que nenhuma mãe quer ouvir um filho dizer isso. Depois da minha mãe me acalmar, o talento nato de todas as matronas, aquietei e decidi pedir ajuda à primeira pessoa que encontrei… felizmente a mulher ia para o mesmo lugar que eu e só me restava colar-me a ela. Esperamos pelo autocarro, que chegou 15 minutos depois, e eu decidi ligar ao Monsieur Pascale para avisá-lo que iria chegar atrasado… um erro crasso para alguém que quer causar uma boa impressão ao patrão. No autocarro, decidi pedir ajuda ao motorista, apesar de muitos deles não primarem pela simpatia (mas talvez este tivesse um pouco de humanidade e me tomasse por uma turista perdida) e o senhor, apreciador da música promíscua de Notorious BIG mostrou-se prestável e indicou-me a paragem em que devia de sair.
Ao chegar ao destino, sai juntamente com a senhora que, provavelmente, estava atrasada para apanhar algum comboio, pois começou a andar apressadamente ao mesmo tempo que falava comigo por cima do ombro: «Sou da Geórgia (o país do Estaline) e tu és de onde?... Queres ir mesmo para a estação de Clapham Junction?». Mas acho que deve ter sido uma pergunta retórica pois ela não ficou para ouvir a minha resposta, acabando por se perder na infindável multidão. De facto eu já estava na estação de Clapham Juntion, mas aquela não era a rua que eu vira no dia anterior… faltavam cinco minutos… estava na hora de uma atitude drástica: apanhar um táxi!
Para piorar ainda mais, o motorista era um daqueles velhinhos que não devem saber o que é uma reforma. Após ter gritado umas cinco vezes o destino que pretendia, ele dirigiu o seu dedo trémulo (aposto que ele tinha Parkinson) até ao GPS (que destacava naquele carro que presumivelmente deve ter assistido à II Guerra Mundial) para escrever o destino, não sem antes reclamar: «Eu não sei onde fica essa rua», «Fica aqui perto, você vai pela Grant Road…», «Grant Road?! Grant Road é já ao virar da esquina! Eu estou aqui há mais de quinze minutos!». Se eu não tivesse com tanta pressa teria matado com requintes de crueldade! Que otário se mete a reclamar em vez de fazer dinheiro?! Normalmente os taxistas não são tubarões sedentos de dinheiro que adoram enganar os passageiros, fazendo sempre o caminho mais longo? Eu não me importo que ele me leve o dinheiro, só quero chegar à merda da rua! «Chatfield Road!», gritei eu. «Podes soletrar?», pediu ele. «C-h-a-t… não é Chapfield, é Chatfield!!!», berrei, inclinando-me sobre o vidro que separava os bancos traseiros dos dianteiros (chique, né?) e onde encontrei um cão quase tão velho como o dono deitado do lado do taxista (boa, onde é que vim amarrar o meu burro). Após o homem ter colocado a direcção no GPS (o que deve ter demorado uns belos 5 minutos), ele decidiu arrancar o táxi (Oh happy day!).
A viagem foi rápida, apenas para poupar tempo e não justificou a elevada quantia (afinal eu estava do lado oposto à rua que conhecia e era só atravessar um túnel ao qual eu não prestara atenção devido aos nervos). Paguei ao taxista, que além do mais deve ser bipolar, pois no fim até me tratou com amabilidade e corri para o restaurante, entrando de rompante e sendo recebida por um esguio jovem francês. Apresentei-me, troquei de roupa e benzi-me. Ao início tudo parecia extremamente compensador para a aventura que acabara de viver: os colegas eram simpáticos, o restaurante acolhedor, e o Pierre andava a tentar flertar comigo (um rapaz algo bem parecido, mas eu não consigo levar os homens franceses a sério… personal reasons), mas a meio da noite as coisas começaram a descambar. A colega australiana que me andava a dar as dicas e que expressamente me disse «não tires pedidos aos clientes», andou a debitar na sua voz desprovida de emoção as regras do restaurante. O restaurante era cheio de frescuras, afinal é francês e os clientes estão cheios de dinheiro, a comida não me parecia muito apelativa (sinceramente, será que os franceses não passavam fome depois de comer um “foigrá” ou um bife “tartará”?). Final da noite, faminta pois ainda não comera nada e com a moral em baixo, o dono do restaurante chamou-me e deu-me a sua opinião… não era o tipo de pessoa que procurava… se ao menos a australiana me tivesse ajudado como deve ser! Tanto esforço em vão… e lá se ia o meu possible affair avec Pierre.
Com fome, a altas horas da noite e capaz de me tornar num daqueles psicopatas que aparecem nos seriados americanos, acabei por desabafar a minha angústia com a minha mãe. Não sabia o que fazer… podia voltar para Crawley nessa mesma noite, mas já prometera ficar em Canning Town, e não parecia de bom-tom recusar… um fim-de-semana em Londres não era mau de todo e também estava na hora de dar um desconto a quem me acolhera em Crawley. Eu teria curtido o fim-de-semana, se os meus dias em Inglaterra não estivessem contados… pelo menos na viagem de volta apanhei os transportes certos…
Foto da estátua de Roosevelt e Churchill, tirada por alguém que teve mais sorte que eu.
Obs: Tinha este texto na gaveta desde 22 de Março mas só agora pude postá-lo.
Assistindo às notícias na RTP Internacional, recebi esta boa nova com profunda alegria. Depois de 100 anos de luta os EUA finalmente vão ter um sistema de saúde nacional. Um salve ao Barak! Verdade seja dita que já estava na hora de ele fazer alguma coisa, pelo menos para justificar o duvidoso Nobel da Paz que recebeu. Ao ver esta notícia, rapidamente lembrei-me do gorducho bonacheirão cujo sentido de humor e os documentários já o colocaram num lugar muito especial no meu Hall of Fame: Michael Moore. Já assisti a todos os documentários dele, mas devo dizer que, de todos, o mais revoltante é sem dúvida “SiCKO”. Por mais vezes que o assista, sempre choro nos momentos estratégicos: o caso da mãe que viu a filha morrer-lhe nos braços porque o seguro de saúde não lhe cobria as despesas; de uma esposa que viu o marido definhar até à morte com cancro nos rins; de um velhote de 80 anos que, em vez de estar a apreciar a sua reformar, era obrigado a trabalhar para pagar os medicamentos; de pessoas a serem atiradas na rua como sacos de lixo porque não podem pagar a conta do hospital.
As grandes seguradas, as empresas farmacêuticas e uma data de políticos corruptos foram condescendentes com este sistema podre que nega um bem essencial à sua população, tudo em prol do lucro, um lucro obsceno, neste caso.
Se fazer lucros é só o que interessa para estas grandes empresas onde o conceito de “sufeciente” não existe, porque que o McDonald’s, por exemplo, em vez de vender comida geneticamente modificada, não vende cocaína? Ou porquê que o Starbucks não junta bolinhos de haxixe ao seu Caffe Mocca (talvez a sensação seguinte faça jus ao nome do café)… pensem bem: um Cheeseburger custa 1 euro, um saquinho de cocaína deve custar uns 10 euros… já viram o lucro que isso seria? Já consigo imaginar as pessoas a gritarem na Bolsa de Valores, a Dow Jones pode atingir o seu máximo… é só lucro!!!
Felicito os americanos pela sua conquista, e também o Sr. Obama, que talvez ainda venha a fazer grandes coisas pela América, como fizeram Abraham Lincoln e Franky Roosevelt. É um novo dia para a América e, como disse o Mikey no “The Big One”: «um império do mal (nazismo) caiu, o outro (capitalismo) também há-de cair».
Obs: Junto ao texto juntei um vídeo-chave do documentário SiCKO em que se faz uma comparação com o NHS (sistema de saúde britânico). God save the NHS!
Ps: Estive um tempo afastada porque as pestinhas de quem ando a tomar conta no Sheraton têm-me desgastado (mas ainda assim eu continuou a adorar crianças) e porque o meu complexo de Greta Garbo atingiu o auge, mas as coisas tem andando a compor-se e pouco a pouco ando a deixar o eremitismo de lado. Ando a reunir umas coisas fixes da minha estadia no Reino Unido para partilhar com os meus fiéis leitores.
Ps1: E nada melhor que comemorar a nova conquista com a boa música americana. Um bom hit para se ouvir numa pick-up chevrolet enquanto se percorre a América de uma ponta à outra (mais uma das dez coisas para se fazer antes de morrer. [Já tirei dessa lista o descobrir porquê que a Hannah Montana vende Cd's. Não se pode exigir muito de jovens que consideram Tokio Hotel música e acham que o Zac Effron é bonito. For heaven sake, não há nada de bonito nele!])
And so she came back. Pois é, acabei de chegar (o que já deve dar para ver pelos acentos ortográficos), cansada da longa travessia que fiz com 40kg atrás e com os arrotos dos meus companheiros de autocarro ainda a ressoar nos ouvidos (arrotar o alfabeto não é uma proeza, guys, é nojento!). Sair de Inglaterra foi a coisa mais difícil que fiz nos últimos tempos (mais difícil do que dar 8 libras para ver o Remember Me. O Robert estava hot, como sempre, mas o filme ficou um pouco aquém das minhas expectativas). Sabem quando tem a sensação de que pertencem a um sítio, de que estão no vosso habitat natural? Eu senti-me assim. Adorei cada momento em Inglaterra, apesar das coisas não terem corrido pelo melhor. O Tavares (o baixasta da Fresno, não o meu gato, que Deus o guarde), certa vez, disse que a sua mãe lhe costumava dizer «as coisas não correm mal por acaso», e eu vou tentar tirar algum consolo destas palavras. Não vou desistir, até porque voltar para Inglaterra e triunfar já se tornou uma questão de honra, especialmente porque já tenho 21 anos e o tempo parece avançar matreiramente como uma raposa. Quer dizer, aos 21 anos a Victoria já respondia pelo título de "Sua Majestade" e já tinha dado início ao seu espírito procriador (ela teve 9 filhos em 19 anos de casamento. Outch!); a Agatha Christie provavelmente estaria enamorada do Coronel Archibald; Charlie Chaplin dava os primeiros passos na sua brilhante carreira cinematográfica e Greta Garbo, bem, ela estava a fazer as duas coisas que sabia fazer melhor: ser melancólica e terrivelmente bonita. E eu, aos 21 anos, aqui estou, com os sonhos pendurados no cabide e vendo as coisas desenrolarem-se à velocidade do nosso prezado Sistema de Saúde. É chato, pensar que as coisas vão voltar a ser mundanamente rotineiras como sempre eram quando estavam aqui e que as perspectivas que se poderiam abrir para mim terão de continuar dentro da gaveta até nova ordem. Pelo menos, a parte positiva é que no voo de retorno vim a conversar com uma familia inglesa que me explicou como é dificil a situação para aqueles que acabam de chegar à Inglaterra. É preciso paciência, disse a senhora Sarah. Paciência eu tenho para doar e vender, dinheiro é que não. Dinheiro, dinheiro, dinheiro! Os tempos que passei sentada nos bancos de jardim a ver os esquilinhos correr, nunca odiei tanto algo como essa coisa. Já chegaram ao ponto de parar para pensar nas coisas e ver que, no fundo, o mundo é incrivelmente estúpido? Digo, pensar que a nossa vida, a nossa existência, a nossa felicidade, tudo depende de um pedaço de papel!!
Bom, amanhã começo a trabalhar num part-time para repor o dinheiro perdido, afinal, Roma não se fez da noite para o dia e good things come to those who wait. Se assim for ainda devo de ter alguma epifânia.
Ps: Agradeço a todos os amigos o apoio e desculpem a frieza no retrocesso. Simplesmente ainda estou a tentar lidar com várias coisas ao mesmo tempo e receio de momento não ser a melhor das companhias.
Ps1: Até ao final da semana ponho as leituras em dia.
Ps2: Fiquem ao som de Cartola. Aí está um tipo de quem senti mesmo muita falta.
O que fazer quando as coisas nao correm como planeamos e parece que alguem foi ao Professor Bambu para fazer um servicinho de macumba para que tudo nos corra mal? Em apenas uma semana o meu Britsh Dream transformou-se num Nightmare e dia 5 de Abril estarei retornando a Portugal com a moral quase tao embaixo como as tropas de Napoleao quando nao conseguiram invadir a Russia. Dispenso perguntas sobre o que se passou pois nao pretendo dizer a ninguem, what happens in England, stays in England. Claro que nem tudo esta perdido... nem mesmo quando a Pandora abriu a famosa caixa as coisas ficaram perdidas, pois juntamente com todos os males do mundo, que sairam de dentro da Caixa de Pandora, tambem saiu uma luzinha muito pequena chamada "esperanca" e eu pretendo voltar a Inglaterra em finais do ano, desta vez com as coisas melhor orientadas. So' me resta dizer que adorei este pais, e quando digo este pais digo o pais todo, dado que andei por Lincolshire, Sussex, e mais um ou outro condado que agora nao me recordo. Conheci muito boa gente e tambem pessoas que se o Hitler tivesse mandado para a camara de gas eu nao ia sentir pena nenhuma. Honestamente devo dizer que nao gosto de Londres... e' uma cidade fixe (= legal) para se passear e bastante enriquecedora a nivel cultural, mas se vivesse nela teria que andar constantemente sobre o efeito de Prozac pois o stress, as pessoas sempre a empurrarem-se umas as outras, os seus olhares vazios dentro do metro, simplesmente decadente... prefiro Crawley, onde presentemente estou... Volto para Portugal, mas regressarei em breve, e preparem-se, porque nesse data, as coisas vao ser diferentes para o Reino Unido.
O que vou escrever em seguida provavelmente ira desafiar algo em que muitos de vos acreditam, em especial no que concerne a regimes politicos, mas diga-se de passagem que eu nunca me considerei totalmente de esquerda, conquanto frequente enventos organizados pelo Partido Comunista Portugues, prefiro pensar em mim como uma "free thinker" - venero Marx mas discorod com a sua ditadura do proletariado, preferindo a vertente mais democratica de Bernstein e da social-democracia. Anyways, hoje vou falar de regimes politicos e dizer que o meu apreco pela monarquia tem aumentado (talvez porque presentemente esteja a viver numa). Passo a explanar a minha ideia de seguida.
Existem varios tipos de regimes: ditaduras militares, regimes presidencialistas, monarquias absolutas, etc., no entanto, so' falarei de quatro: presidencialismo, semipresidencialismo, parlamentarismo e monarquia constitucional.
No regime presidencialista, exemplo: Brasil ou EUA, o presidente e' o chefe de governo e de estado, isto e', o poder legislativo nao esta' desligado do executivo. Uma coisa ja' reparei nestes dois paises e' que o presidente parece passar mais tempo fora do que dentro do seu pais. Veja-se o caso do Lula, que parece estar envolvido em quato todos os encontros internacionais e quase tempo nenhum passa no Brasil. A sensacao que tiro desses dois paises e' que, alem de ambos terem proporcoes continentais e serem federacoes, o que os torna mais dificeis de governar, o seu dirigente parece estar mais envolvido em cimeiras disto, congressos daquilo, o que me leva a pensar: "mas afinal quem e' que governa este pais quando ele esta' fora?"
Segue-se o regime semipresidencialista, tomando como exemplo a Franca. Neste regime ha uma dualidade executiva entre o presidente e o primeiro-ministro, ficando o primeiro encarregue da politica externa e o segundo da interna. E' algo acertivo e acabamos por ter a ideia de que o presidente faz mesmo algo. Ligando a televisao vemos o Sarkozy a falar da politica externa francesa, e tambem da interna, sentimos que ele parece fazer algo. So' lamento que o primeiro-ministro nao seja tao mencionado, quer dizer, quantas vezes ouvimos falar do PM frances? Honestamente eu nem sei quem ele e'.
Depois ha o parlamentarismo, tomando o caso portugues. Neste regime, o poder executivo depende do apoio directo do parlamento, nao havendo separacao nitida entre o executivo e o legislativo. Lembro-me durante um almoco ao som das noticias sobre o primeiro-ministro portugues, o Jean perguntar: "so falam no PM, afinal para que serve o presidente?". Concordo. Ultimamente ouvimos falar tanto do Jose Socrates que perguntamos: afinal o que faz sua excelencia Anibal Cavaco Silva? Bom, num regime parlamentar, o presidente pode ficar encarregue das forcas armadas (alguem viu o Cavaco fazer isso?), das questoes diplomaticas (mas parece que o Socrates e' que faz tudo, ainda que mal e porcamente) ou pode disolver o parlamento, como o Jorge Sampaio muito bem fez com Santana Lopes. Nao, agora a serio. O que e' que o Cavaco Silva faz da vida a nao ser andar por ai a distribuir mencoes honrosas e a visitar comunidades portuguesas na Espanha, em Andorra ou sei la' mais aonde? Tenho uma novidade para ti, Cavaco, qualquer menina dos escuteiros pode distrubir medalhas. Justifica-se pagar um salario exorbitante para um tipo andar a fazer so isso e sem fazer nada contra um paspalho que, com as suas medidas politicas, so torna a situacao do pais ainda mais caotica? Senhor Cavaco Silva, arranje um trabalho a serio (e ja' agora, ponha botox nos labios e pare de falar como se estivesse aflito para ir a casa-de-banho). Com um regime assim, Portugal parece voltar aos tempos salazaristas em que presidente nao passava de um mero corta-fitas manipulado pelo PM. Nao seria mais proveitoso ter uma monarquia?
Coloquemos de lado a ideia do Rei Sol, do Antigo Regime, falo de uma monarquia constitucional como o caso ingles. Pensem bem, o presidente tem um salario vitalicio, afinal, ja' ocupou o cargo mais alto do pais... esse presidente, mesmo fora de cargo, presida de secretaria, motorista, guarda-costa e por ai a fora, fora o salario. Isto e', alem do Cavaco silva, tambem pagamos estes luxos a Ramalho Eanes, Mario Soares e Jorge Sampaio (sim, provavelmente o Mario Soares vai bronzear as suas bochechas de buldogue para Portimao com o vosso dinheiro)! Se, neste cenario, o presidente nao faz nada e ele muda sempre que o seu mandato termina, nao seria mais proveitoso para os cofres do estado ter um rei... o dirigente muda sempre que o monarca morre, e' certo que a monarquia e' heriditaria e nao electiva, mas de que adianta eleger um presidente se ele pouco ou nada faz? O rei mantem-se no poder ate 'a sua morte e os seus "criados" mantem-se com ele. Tendo como exemplo a Inglaterra, vemos a Rainha envolvida em iniciativas do povo, vemo-la visitar empresas empreedoras, vemos o principe William ligado 'as obras de apoio social e vemos o PM envolvido na politica externa e na interna. De facto, vemos algo a ser feito! O principe William, por exemplo, fez servico militar. Sera que o filho de algum presidente o fez? Nao creio que algum deles estaria interessado em mandar o seu filho para a guerra. Sei, contudo, que muitos elementos das familias reais europeias combateram nas Grandes Guerras Mundiais, onde acabaram por perder a vida (esse e' o verdadeiro patriotismo, o governante deve dar o exemplo e morrer pela sua patria, caso necessario... nao limitar-se a mandar os outros para a morte, como se fossem meros peoes num tabuleiro de xadrez). Ok, a familia real britanica tem os seus escandalos, como qualquer familia normal (a rainha Victoria, por exemplo, declarou a homossexualidade como um crime, o que condenou o escritor Oscar Wilde a dois anos de trabalho forcado. Por ironia do destino, o seu neto Victor Edward envolveu-se num escandalo gay num bordel masculino). Com isto tudo, penso, se o chefe de estao pouco ou nada faz, talvez seja melhor optar por um nao tao dispendioso. So' lamento que o herdeiro ao trono portugues seja D. Duarte Pio, descendente de D. Miguel, O Absolutista (mas claro que voces sabem isso, se estivam atentos nas aulas de historia) e nao um descendente da casa dos Saxe-Coburg & Gotha, que terminou, em Portugal, com D. Manuel II (que nao teve descendencia). Para quem nao sabe, os Saxe-Coburg & Gotha foram uma das mais influentes casas reais no seculo XIX. Dela sairam a mae da rainha Victoria; Albert, principe consorte, marido de Victoria; Leopold I, da Belgica e a sua descendencia ainda no poder; e D. Fernando, casado com D. Maria II e responsavel pela construccao do Palacio da Pena). A minha visao sobre os ultimos anos da monarquia portuguesa e' que, D. Carlos era algo permissivo e nao fazia grande coisa, talvez merecesse o regicidio, mas creio que o julgam mal pelo mapa cor-de-rosa. Portugal tinha, obrigatoriamente, que ceder ao Ultimato Ingles. Como poderia Portugal, um pequeno imperio que acabara de perder o Brasil, enfrentar o Imperio Britanico? Acho que D. Carlos ate poupou inumeras vidas, pois caso houvesse uma guerra, muitas seriam ceifadas.
Desculpem a seca, mas pegando em politica e historia e poderia passar aqui o dia todo!